É um dos mais inquietos realizadores da atualidade. Harun Farocki, um checo que reside em Berlim, é homenageado com uma retrospetiva no DocLisboa. O JL falou com o cineasta que descobre como o cinema se vê ao espelho.
JL: Como artista e cineasta mostra preocupações sócio-políticas, e chegou mesmo a fazer alguns filmes de protesto. Acha que a arte pode salvar o mundo? Ou, pelo menos, deve tentar fazê-lo?
Harun Farocki: A arte é livre, sem obrigações. Mas sinto-me obrigado a tentar contribuir para um mundo melhor.
Alguns dos seus filmes são feitos com imagens dos outros. Sabe-se que a arte também é feita de pilhagens… Acho que o realizador não tem necessariamente de filmar, assim como um pintor não tem que pintar?
Não roubo imagens. Eu uso-as porque quero comentá-las, para assim oferecer uma leitura adicional.
Em parte do seu trabalho parece preocupar-se muito como a semiótica, fazendo com que o público repare nos pormenores das imagens. Acha que, hoje em dia, as pessoas olham de forma superficial, olham sem ver?
Também tenho uma preocupação sintática. Como a imagem em movimento está presente em tal quantidade, em centenas de programas 24 horas por dia, eu só posso competir noutro campo, especializando-me em detalhes, na microesfera.
Filmes com Os Trabalhadores a sair da Fábrica são muito cinéfilos. O cinema é um bom tema para cinema?
Tem razão, cineastas cinéfilos, como eu, são obcecados pelo cinema e a sua História. Mas também a literatura é autorrefletiva. Provavelmente para compensar a atenção inapropriada ou insuficiente que é dada aos seus ofícios.
Por que é que as pessoas a sair do trabalho não se tornou um género?
Quando o primeiro computador foi produzido, em 1953, ninguém se apercebeu da importância da velocidade. A desindustrialização aconteceu sem que ninguém desse por ela, só retrospetivamente. O emprego tornou-se em subgénero. As pessoas a saírem do emprego ou a serem despedidas também se tornou um subgénero.
Em Videogramas de uma Revolução podemos ver como foi peculiar a Revolução Romena. Uma revolução é sempre um drama, com sangue suor e lágrimas, mas algumas coisas na revolução romena são divertidas. Como conseguiu fazer o equilíbrio entre a tragédia e a comédia?
Não foi muito difícil. Tudo o que é humano também é ridículo. Apenas alguns filmes exploram este aspeto. Mas trabalhando num documentário é difícil evitar que se as pessoas revelem aspetos absurdos. A situação é absurda. As pessoas a fazer uma revolução porque estavam fartas dos políticos e aperceberam-se, conformoe um homem testemunhou, que estavam com medo de um idiota. Ainda assim alguns tiveram que morrer para fazer cair Ceausescu.
Pensa no seu trabalho nas artes plásticas como uma continuação do que faz no cinema?
Não é diferente de um escritor que trabalha para um jornal e para os seus livros ao mesmo tempo.
O cinema é uma arte ainda jovem apenas com um século, mas por vezes parece demasiado estabelecido. Onde está a vanguarda? Será o 3D? Porque não há filmes de autor 3D?
Adorava fazer um documentário simples e minimalista em 3D, mas os meus olhos não dão para isso.
Qual será o seu próximo filme?
Tenho vários projeto, um deles será uma produção com centenas de realizadores, em 15 países diferentes.