Ser ou não ser… gay já não é a questão. Se bem que na véspera do nosso encontro com Julianne Moore, durante o recente Festival de Roma (28 de Outubro a 5 de Novembro), as manchetes da imprensa local (e não só) davam enlevo à declaração infeliz do Primeiro Ministro local justificando ser melhor “estar com uma mulher bonita do que ser gay“. Felizmente, a procura de identidade em Os Miúdos Estão Bem, de Lisa Cholodenko, corresponde bem ao que deve ser uma boa comédia ou drama romântico. O agregado estável de Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) é abalado pelo desejo do filho (Josh Hutcherson) e mais tarde pela irmã (Mia Wasikowska) em procurar o pai biológico (Mark Ruffalo). Oportunidade para Julianne se entregar totalmente ao destino da sua personagem, uma mulher insegura que procura encontrar-se experimentando uma diferente relação emocional. Durante um pouco menos de meia hora, foi de liberdade de orientação sexual que se falou. E de alguns, poucos, embaraços ao lado mais mainstream dessa escolha. Olhando para as prestações femininas do ano, não será sequer exagerado considerar esta dupla feminina entre as melhores. Sim, o buzz para os Óscares já começou.
Tive ocasião de ver este filme há algum tempo, em Berlim e de conversar com a Lisa que o definiu como uma visão ‘mainstream’ sobre as relações familiares. Ora, como a Julianne tem vivido diversas relações familiares em outros tantos filmes, pergunto-lhe se sentiu esse lado ‘mainstream’ na espantosa relação amorosa que mantém com Annette Bening?
Obrigado. Acho mesmo que o filme é ‘mainstream’. Rapidamente nos esquecemos que existe uma relação gay. Em muitos filmes as personagens questionam-se sobre quem será o seu futuro companheiro, com quem casará e iniciará uma família. E para nós que estamos casados já quase não nos lembramos desses momentos. É algo que se passa num ápice. É disso que trata o filme – essa exploração na meia-idade. Percebemos que Nic e Jules são ambas mulheres com sucesso, percebemos onde elas falharam, mas reconhecemos também o seu incrível compromisso. A Lisa é muito empenhada na ideia de partilha no casamento. E é bonito ver isso num filme como este.
Teve alguma preparação especial para este papel? Quais foram os principais desafios que sentiu?
O principal desafio, como em qualquer filme, foi torná-lo o mais real e verdadeiro possível. Nesse sentido não tive sequer de fazer uma grande pesquisa pois já tenho alguma experiência como mãe. E é disso que este filme trata: explorar a chegada à meia idade madura, avaliar o estar com o mesmo parceiro há muito tempo e sentir todas essas mudanças na nossa vida. Por outro lado, o desenvolvimento e crescimento dos filhos, bem como as variações das ligações entre eles e os pais. Estes são, na verdade, temas universais.
Sente que este tipo de agregado familiar é já considerado normal nos Estados Unidos?
Sim, acho que estamos a ver cada vez nos EUA mais este tipo de famílias com dois pais ou duas mães. Pelo menos na escola dos meus filhos em Nova Iorque há muitos casos desses. Cada vez mais as famílias homossexuais são bem aceites, não só nos Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo.
Este é também um filme sobre uma traição. Como é que encara o problema em que um parceiro não respeita as regras do jogo e trai a confiança do companheiro?
É uma pergunta muito interessante. A Jules é uma mulher algo perdida. Ela acabou por ficar em casa e tratar das crianças durante muitos anos e percebeu que a sua vida estava a mudar agora que uma delas estava para sair e ir estudar para fora. Está num momento da vida em que não sente vista e desejada. Por isso, sente-se atraída pela ideia de divertir-se um pouco e perceber que novas hipóteses de trabalho poderá ainda ter. Acho que ela não deseja enganar a companheira, acaba por envolver-se numa inesperada relação afectiva. O que me parece importante para mim é essa procura de atenção.
Trata-se de um filme ousado por mostrar que não é o género do sexo que define a família. E não se coíbe sequer de mostrar como, por vezes, o sexo homossexual também não funciona…
Mas a questão aqui não é sobre sexo gay ou sexo heterossexual, e sobre sexo no casal ou sexo fora do casal. Estas mulheres conhecem-se há muito tempo e começam a descobrir algumas disfunções no seu relacionamento. Acho que se as coisas estivessem bem, a Jules não procuraria outra pessoa. Acho que a Lisa não pretende fazer nenhuma comparação entre sexo gay ou heterossexual.
Curiosamente, vimos aqui em Itália um cabeçalho do jornal com a seguinte declaração (de Berlusconi): “É melhor gostar de mulheres belas do que ser gay”. Como definiria uma personagem como esta?
Acho que é uma declaração infeliz e idiota. Vivemos num tempo em que a orientação sexual é algo biológico. Nós somos quem somos. Eu acho que os meus filhos estão presentes desde o momento em que nasceram. Estão ali. Recusar isso é admitir que existe algo errado com a homossexualidade. Essa declaração é arcaica, é infeliz e é embaraçosa.
Como foi trabalhar no set com actores de idades diferentes e com experiências diversas?
É sempre um desafio porque haverá sempre alguém com diferentes métodos de trabalho. No fundo o que interessa é o método em que nos sentimos mais confortáveis. Pessoalmente, gosto de conhecer bem o meu texto e os planos que irei ter e gosto até de os discutir. Depois vou e faço o meu trabalho. Mas neste filme tivemos tão pouco tempo. Por exemplo, a minha cena com o Mark (Ruffalo) foi tão rápida que quase nem me lembro. A Annette, por exemplo, necessita de falar muito com o realizador, ao passo que eu não preciso.
O tema da homossexualidade tem sido recorrente na sua carreira e esteve presente também em Um Homem Singular. O que fez para exprimir o estado de alma daquela mulher que tinha esperança em conquistar o amigo (Colin Firth) de longa data, sem saber que ele era gay?
Não sei exactamente. O que é interessante é que ela acha excitante a possibilidade de ele estar ali com ela. Por isso, quando a visita naquela noite, pensa “será hoje?”. Há algo enternecedor, porque o público sabe que isso nunca sucederá. Torna-se interessante seguir essa ilusão. Curiosamente, é um tipo de sedução misturada com ilusão que sucede bastante.
Foi alguma vez ser surpreendida com uma revelação semelhante?
Não, os meus namorados eram todos heterossexuais (risos). Mas lembro-me de um colega gay na universidade com quem tinha os meus momentos de sedução. Eu tinha dezoito anos na altura e ficava muito confusa, porque ele não se importava de ter esses namoricos comigo. Ele próprio também estava confuso. Há momentos em que a sexualidade não está ainda definida.
Nunca sentiu essas dúvidas?
Não (risos)… Em todo o caso não deixa de ser interessante. Acho que muitos de nós acabamos por ter algumas dúvidas.
Considera ser este um momento certo para tornar as relações homossexuais mais abertas?
Sem dúvida. Lembro-me de tempos em que não era ok ser gay. E não foi assim há tanto tempo. É importante ver as coisas numa perspectiva diferente. Sente-se essa mudança. Muita coisa mudou em termos de sexualidade e raça.