Tirando o rasgado elogio a André Ventura, a entrevista na SIC Noticias de domingo não trouxe grandes novidades. Já sabíamos que Passos Coelho quer reformas, mas continuamos sem saber quais, em que sentido ou em que setor. Sabíamos também que adora André Ventura e se quer entender com ele, que execra Montenegro, esse ingrato que não o elogia todos os dias, e que não esconde o ressentimento contra António Costa, esse usurpador. Também não ignorávamos que a nova imagem do antigo liberal nos costumes é a de um homem austero, monástico, avesso aos prazeres simples dos mortais.
Passos Coelho sabe bem que Montenegro não pode fazer um acordo formal com o Chega. Não que o ex-primeiro-ministro não tenha, ele próprio, prometido em campanha que não cortaria salários e pensões, para os cortar uma semana depois. Mas Montenegro foi demasiado vocal e repetiu o bordão “não é não” vezes de mais. Mas isso não interessa nada, o que importa é destratar o primeiro-ministro. E quer ele lá saber se foi com o Chega que o PSD aprovou dossiers que o próprio acha essenciais como a imigração e a nacionalidade.
Desconfio também que Passos sabe, ou pelo menos suspeita, que uma coligação PSD/Chega acabaria com o PSD. E isso não parece tirar-lhe o sono. Não vale a pena repetir o que tanta gente já disse: por mais plástico que seja, o PSD tem um património político impossível de conciliar com a práxis do Chega. A máquina podia ficar, mas grande parte dos eleitores fugiria, como, aliás, deixa claro o estudo de opinião feito pelo ICS para o Expresso.
Passos quer muito voltar a ser primeiro-ministro, Passos tem muita pressa, mas Passos não sabe como há de chegar ao lugar para “fazer o que é preciso”, seja lá isso o que for.
Percebe-se bem de onde vem a pressa. O tempo passa e nem Montenegro cai nem ele almoça. A esperança numa intervenção do PGR parece ter esmorecido. E, mesmo que o escândalo fosse grande, era capaz de jurar que o primeiro-ministro só se demitiria se saísse algemado de São Bento. Seguro, esse, tratava de se esconder debaixo de uma mesa qualquer.
Se o homem de Espinho for a votos nas próximas eleições, ou ganha ou arrisca-se seriamente a ficar atrás de Ventura. Passos pode sempre ir para vice do homem que tanto admira, mas não me parece que seja esse o plano.
Talvez o ex-líder da JSD aposte noutro guião. O PS ganha as próximas eleições, Montenegro cai e ele regressa à liderança do PSD. Depois, tratava-se de derrubar Carneiro e convocavam-se novas eleições. O povo, ao ver o sério e austero Passos Coelho de novo à frente do PSD, não hesitaria em voltar a votar no partido. Ventura aceitaria tudo, claro – está-se mesmo a ver.
Resta-lhe ainda lançar um partido, uma espécie de peronismo à lusitana. Não lhe têm faltado pedidos nesse sentido, mas, por mais ungido que se julgue, não deve ter perdido a noção.
Passos Coelho não se importa de mentir ao associar imigração a criminalidade. Não o incomoda coligar-se com alguém que tem feito tudo para destruir as instituições e que é um despesista furioso. E vamos dar de barato o racismo e a xenofobia, que, estranhamente, não parecem perturbar minimamente o ex-primeiro-ministro. Não se cansa de repetir mil vezes a palavra “reformas”, como se tivesse poderes mágicos. Agora é que vai ser, nada de mais do mesmo. Ele só quer ser primeiro-ministro. Boa sorte.
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