Sinal dos tempos, ou da natureza humana, associamos hoje a palavra “camuflagem” imediatamente ao universo bélico. Mas antes do padrão de “camuflado” nas fardas de soldados e equipamentos militares, antes ainda da própria invenção da palavra e da linguagem humana, já a camuflagem era um fenómeno presente na Natureza, nas lutas de sobrevivência entre presas e predadores. Não surpreende, pois, que a arte da dissimulação, esta forma de estar presente parecendo estar ausente, tenha tantas vezes chegado ao mundo das artes.
Nesta nova exposição da Associação P28 é precisamente o conceito de “camuflagem” que serve de eixo central temático a propostas muito diferentes e em diversos suportes. Na galeria instalada dentro do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, não falta, mesmo, uma obra do grande mestre da dissimulação, que fez da ocultação uma arte: o búlgaro Christo (1935-2020). Aqui, vemos a obra, de 1968, Wrapped Portrait of Jayne Mansfield, com um retrato a óleo sobre tela que, embrulhado em plásticos atado com cordéis, mal se deixa vislumbrar.
Mesmo ao lado está a peça Sem Título, realizada já este ano por Stella Kaus, em que transparece inquietação, um certo caos explosivo e colorido e até alguma agressividade (“fuck off” lê-se um pouco por todo o lado, em rabiscos apressados).

Estas obras, lado a lado, simbolizam bem a identidade deste projeto/galeria. Stella é uma das artistas residentes da P28 que, recorde-se, tem como principal missão, desde 2009, “a difusão da arte contemporânea” com a responsabilidade cultural e social de ter o foco nas ligações entre “arte” e “doença mental.” Apresentam-se, pois, como “a única galeria de arte nacional que apresenta parcerias entre artistas profissionais e artistas residentes numa unidade de saúde mental.”
Nesta Camouflage, com curadoria de Katherine Sirois e Lourenço Egreja brilha, ainda, um retrato do mestre da arte pop, Andy Warhol, que nos seus trabalhos finais explorou o padrão dos camuflados (num momento em que não era nada habitual ver essas formas e cores em acessórios de moda populares, como tem acontecido nos últimos anos). A obra que aqui podemos ver é Joseph Beuys, In Memoriam, de 1986, pertencente à Coleção de Arte Contemporânea do Estado.

Um lado lúdico (como na instalação Na Sombra, de Pedro Valdez Cardoso) espreita em peças que tanto evocam a ideia de camuflagem na Natureza (Gabriela Albergaria, Fabrizio Matos, Daniel Gustav Cramer…) como nos transportam para o imaginário das guerras (Miguel Palma, Manuel Botelho, Edgar Martins e, logo no início, Abbott Thayer, o pintor naturalista americano que, no princípio do século XX, contribuiu para inéditas práticas de camuflagem presentes na I Guerra Mundial).
Ao todo, sob o signo da camuflagem, entre fotografias, instalações, esculturas, aguarelas e pinturas estão aqui representados 17 artistas.
Camouflage > Galeria P28 > Hospital Júlio de Matos, Av. do Brasil 53, Pavilhão 31 (entrada Rua das Murtas) > até 5 jul, qua-sáb 14h-19h > grátis