As Escadinhas da Saúde, agora rolantes, sobem do Martim Moniz para a Mouraria
Marcos Borga
Na Rua da Mouraria, ponto de partida desta subida de 32 metros, com um desnível de 13, acumulam-se turistas, de máquina fotográfica em riste. Todos sobem de pescoço torcido, porque atrás fica uma bela panorâmica para a Praça do Martim Moniz com o casario da Colina de Santana em pano de fundo. As Escadinhas da Saúde, que outrora acompanhavam o interior do percurso da Muralha Fernandina, a separar S. Cristóvão-S.Lourenço da antiga Mouraria, continuam no mesmo sítio. Mas ao lado dos 137 degraus de pedra estão a funcionar, desde meados de outubro, umas escadas rolantes.
Esta pode não ser a melhor invenção desde a roda, mas facilita, e muito, o acesso à Colina do Castelo, que ganhou mais uma alternativa, assinada pelo arquiteto João Favila, pois já existiam dois elevadores – um na Rua dos Fanqueiros, outro no antigo Mercado do Chão do Loureiro. Chegados lá acima, em pouco menos de dois minutos – 1 minuto e 47 segundos, para sermos rigorosos –, faz-se uma curta pausa para apreciar a calmaria da Rua Marquês Ponte de Lima, com a sombra da copa das árvores a contrastar com o sol a bater nas portas ainda molhadas pelo orvalho da manhã. É cenário de postal, é verdade, mas não será o único ao longo deste nosso passeio.
No Largo da Rosa, encostado às Escadinhas da Costa do Castelo, com um monumento ao poeta Afonso Lopes Vieira que ali morou, ouvimos um guia turístico explicar em castelhano que a autarquia vendeu o Palácio da Rosa a um grupo hoteleiro madeirense, “o que é uma pena, pois tem os salões intactos”. A venda e a transformação deste edifício são exemplo do que, nos últimos tempos, tem acontecido por estas ruas, a deixar muitos moradores revoltados. Só na Rua das Farinhas, contam-nos, são já sete os prédios vendidos para dar lugar a alojamento local. Mais à frente, os toldos castanhos alinhados do Páteo – Lisbon Lounge Suites confirmam a situação.
Na Union, casa de empanadas argentinas, à massa artesanal junta-se o tempero sul-americano, picante e com muitos cominhos
Marcos Borga
Tempero sul-americano
Para Gertrudes Etelvina, moradora no bairro há 25 anos, mais premente do que as novas escadas rolantes era um parque infantil “para as nossas crianças”. Cozinheira na Cantina Baldraca, restaurante italiano que há uns 15 anos era do mais moderno que existia em Lisboa, das suas mãos saem massas, pizzas, risottos e saladas a qualquer hora. Mas em S. Cristóvão também há lugar para novos negócios, como a Union, casa de empanadas argentinas, aberta em dezembro do ano passado por João Lopes David.
No número 18 da Rua das Farinhas, que foi em tempos uma barbearia, abandonada há uma vintena de anos, abriu-se uma pequena janela para a rua, onde agora se vendem cocktails, ginjinha, aguardente, vinho e cerveja artesanal. As empanadas mudaram-se, em julho, para uma loja maior, cheia de salero, uns metros mais à frente, já na Rua de S. Cristóvão, ainda engalanada para os Santos Populares. João David nunca foi à Argentina, mas em breve quer visitar Tucumán, a região por excelência das empanadas e de onde é natural o seu fornecedor, também a morar em Lisboa. À massa artesanal junta-se o tempero sul-americano, picante e com muitos cominhos. Recentemente, o recheio de galinha destronou o de vitela, sobrando as variedades de milho, atum, espinafres e queijo, e cebola e queijo, servidas sempre quentes, graças às várias fornadas, de 30 empanadas cada, que vão saindo ao longo do dia. Desde os tempos da faculdade, que o arquiteto lisboeta conhece bem esta zona – vinha comer os típicos pratos africanos, cachupa ou caril de amendoim, preparados pela “Tia Mento”, do restaurante S. Cristóvão, agora seu vizinho da frente.
“Esta rua tem um lado muito humano. Com escadinhas misteriosas, chegamos a praças. Não foi desenhada para carros, mas sim para pessoas e cavalos, no máximo”, diz o dono da Union que ocupa uma antiga padaria, de 1950 – onde também funcionou o restaurante Leopold do chefe Tiago Feio. Ali, ninguém fica indiferente à decoração que mantém os tetos trabalhados e o balcão de mármore original, mais a pintura decorativa da dupla Gonçalo e Raquel Jordão, vencedores de um Oscar com o filme Grand Budapest Hotel. Os frasquinhos, a lembrar as antigas “pharmácias”, guardam as porções certas das bebidas alcoólicas necessárias para fazer negronis, margaritas, mojitos ou daiquiris. E, como João David gosta de inovar pela diferença, para os dias de inverno vai ter chá marroquino, sidra e vinho quentes.
Na Boutique Taberna, nas Escadinhas de S. Cristóvão, há música ao vivo todos os dias
Marcos Borga
Os sons do bairro
Deambular pela Rua de S. Cristóvão no lusco-fusco ganha outra dinâmica. O sol dá lugar às luzes dos estabelecimentos que começam a arrumar a casa para receber os seus músicos. Quando a Tasquinha Canto do Fado abriu, há sete meses, esta artéria era um marasmo mas, desde o verão, as noites de fado (20h30-24h) ganharam novo ânimo. Esta não é uma casa de fado tradicional, está sempre de portas abertas para a rua e tem luz alta, com prateleiras cheias de garrafas de vinho, latas de conservas e azeite, enquanto nas paredes há graffiti do artista Utopia.
Também no Tasco do Turra, mesmo em frente, sempre que o dono, Miguel Loureiro, tem casa cheia, pega na guitarra e começam as cantorias. Nascido e criado no bairro, depois de ter estado uma década na Guiné, regressou em 2017 e juntou-se a Mário Ribeiro para abrir um tasco em que a relação qualidade/preço fosse vantajosa para todos, turistas e moradores. Sempre com as portas escancaradas, o Tomés Caffé oferece todos os dias (19h-23h) uma banda sonora diferente, do blues à bossa nova, do samba ao forró, tornando os sábados uma das noites mais animadas, com gente a dançar até na rua. A antiga tasca do senhor Carlos anuncia agora, em dez línguas, as melhores sanduíches de leitão, mas da cozinha de Tomé Pinheiro também saem arroz de pato, feijoada, bacalhau à Brás e tábuas mistas.
A Tropical Bairro Vintage Shop, loja de discos de vinil e de roupa em segunda mão
Marcos Borga
A primeira a apostar na música ao vivo, recuperando um género esquecido um pouco por toda a cidade, foi Maria do Céu Brito, na Boutique Taberna, nas Escadinhas de S. Cristóvão. Há quatro anos, começou como café, depois afinou para bar e, desde abril passado, passou a ter música ao vivo todos os dias. As tostas, o chouriço assado, os patês, o vinho, a cerveja, a sangria e o gin saboreiam-se ao som de ritmos africanos, brasileiros, rock ou blues. “A mudança no bairro é boa para todos. Quanto mais coisas novas existirem, mais beneficiamos”, resume a moçambicana que adora tarecos antigos, peças que encontra na rua ou compra na Feira da Ladra e depois transforma.
Paolo Dionisi, italiano de Milão, não tem músicos a tocar na Tropical Bairro Vintage Shop, loja de discos de vinil e de roupa em segunda mão aberta quase há um ano, mas, como também é DJ, acaba por estar sempre a mudar a banda sonora. “Aqui é fixe”, diz num sotaque italiano já a puxar para o português. “É um bairro que mudou muito, mas continua central, popular, antigo e característico”, descreve Paolo, que conseguiu arrendar casa na mesma rua, onde tem a sua coleção de mais de três mil discos. Além dos álbuns e dos singles, Paolo escolhe cuidadosamente a roupa procurada por uma clientela muito jovem. E como a moda voltou aos anos 80 e 90, é imperativo ter jardineiras e blusões de ganga, blusas com estampados geométricos e muitos – mesmo muitos – fatos de treino.
Há 39 anos que Tia Mento prepara comida africana no restaurante S. Cristóvão
Marcos Borga
Veteranos com muita garra
Ir a S. Cristóvão e não comer no restaurante O Velho Eurico é quase sacrilégio. Mesmo nas traseiras da igreja, este é o típico caso de quem soube adaptar o negócio aos novos tempos, com invasões de estrangeiros e filas de espera que chegam aos 45 minutos. O senhor Eurico, hoje com 73 anos, sempre teve mão para fazer boas sopas, caldeiradas e grelhados, mas agora, afastado que está devido a um problema de saúde, são as cabo-verdianas Maria Andrade, a mãe, Ivanilda e Maria, as filhas, a fazer a casa que tem uma legião de fãs para saborear a sua cachupa rica.
Outra instituição gastronómica é o restaurante africano S. Cristóvão da “Tia Mento”. “Abri há 39 anos, ao mesmo tempo que o Chapitô. Trouxe muita cultura para aqui. Fui a primeira africana a cá chegar, civilizada, amável e maravilhosa. Todos os dias, quando entro aqui no bairro, benzo-me e entrego-me a S. Cristóvão”, conta aquela que é uma das pessoas mais queridas no bairro. Também Laurinda, a dona da drogaria, transpira alegria. Ninguém acredita que tem 83 anos, tão bem que está de raciocínio e fisicamente. “Se vou para casa, morro logo”, não se cansa de dizer à filha, que a aconselha a descansar. Consciente de que “as pessoas não olham para o comércio tradicional”, Laurinda continua a vender pasta dentífrica Couto, sabonete de leite de burra da Confiança, potassa para limpar gorduras, Linfer para eliminar manchas de ferrugem, Rex para madeiras e Luminox para polir cromados.
Construída em 1670, a Igreja de S. Cristóvão será também, em breve, motivo de comemoração no bairro, quando as obras de renovação do telhado terminarem. Abrir o património à vida cultural e turística do bairro está na génese do trabalho diário do padre Edgar Clara. Com a sua imaginação fértil, primeiro cria projetos sustentáveis para obter receita para as obras. Neste caso, angariou dinheiro a vender telhas, bolachas com cardamomo e canela e numa exposição de arte contemporânea.
Haverá no mundo uma livraria mais pequena do que a Livraria Simão, ao fundo das Escadinhas de S. Cristóvão? Com 3,8 metros quadrados, talvez seja difícil de encontrar. Desde que ali se instalou, há dez anos, chegado do Porto, Simão Carneiro tem acompanhado a transformação do bairro. Sem excluir qualquer género literário ou língua, por regra vende edições descatalogadas ou livros em segunda mão. “Não sou absolutista, mas há coisas, como a literatura ligeira, que não vendo.” Já os leitores, são todos muito bem-vindos.
Mural de graffiti dedicado ao fado nas Escadinhas de S. Cristóvão
Marcos Borga
COMER
Union (bebidas) > R. das Farinhas, 18, Lisboa > T. 91 897 9014 > seg-dom 10h-24h
Union (empanadas) > R. de São Cristóvão, 27, Lisboa > T. 91 897 9014 > seg-dom 10h-24h
Cantina Baldraca > R. das Farinhas, 1, Lisboa > T. 91 875 1784 > seg-sáb 12h-24h
Leitaria Moderna > R. de São Cristóvão, 37, Lisboa > seg-dom 7h-22h
Tasquinha Canto do Fado > R. de São Cristóvão, 33, 35, Lisboa > T. 21 403 4925 > seg-dom 12h-24h
Tasco do Turra > R. de São Cristóvão, 32, Lisboa > T. 96 516 2296 > seg-dom 10h-22h
Tomés Caffé > R. de São Cristóvão, 23, Lisboa > T. 21 244 6710 > ter-dom 11h-1h
Restaurante S. Cristóvão > R. de São Cristóvão, 30, Lisboa > T. 91 475 2102 > ter-dom 14h-23h
Gelato Davvero > R. de São Cristóvão, 14, Lisboa > T. 21 584 2378 > seg-dom 11h-19h
O Ninho Café-Brunch > R. de São Cristóvão, 17-19, Lisboa > T. 21 136 1664 > seg-ter, sex-dom 9h-18h
O Velho Eurico > Lg. de São Cristóvão, 3, Lisboa > T. 21 886 1815 > seg-sáb 9h-16h, 19h-24h
Restaurante O Trigueirinho > Lg. dos Trigueiros, 17, Lisboa > T. 21 888 1219 > seg-sex 12h-15h, 20h-22h30, sáb 12h-15h
O Corvo > Lg. dos Trigueiros, 15, Lisboa > T. 21 886 0545 > seg-qui 9h-23h, sex-dom 9h-24h
Cantinho do Aziz > R. de São Lourenço, 5, Lisboa > T. 21 887 6472 > seg-dom 12h-23h
Gelato Davvero
Marcos Borga
COMPRAR
Drogaria da Laurinda > R. de São Cristóvão, 10, Lisboa > T. 21 886 2473 > seg-sáb 9h-18h
A Loja da Cerâmica > R. de São Cristóvão, 7, Lisboa > T. 91 536 8190
Tropical Bairro Vintage Shop > R. de São Cristóvão, 3, Lisboa
Boutique Taberna > Escadinhas de São Cristóvão, 8, Lisboa > T. 96 310 4395 > seg-sáb 16h-2h, dom 18h-2h
Livraria Simão > Escadinhas de São Cristóvão, 18, Lisboa > T. 96 103 1304
Camilla Watson Studio > Lg. dos Trigueiros, 16A, Lisboa > T. 21 131 2488
Atelier 16B – Joana Simão e Henriette Arcelin > Lg. dos Trigueiros, 16B, Lisboa > T. 91 653 2611