Um grupo de investigadores da Universidade McMaster, em Hamilton, no Canadá, concluiu que as bebidas cetogénicas, muito procuradas por atletas de alta performance, especialmente de corrida e ciclistas, e que têm como objetivo melhorar o desempenho atlético, não parecem cumprir as promessas que fazem.
Estas bebidas, que supostamente reúnem muitos dos alegados benefícios de uma dieta cetogénica, com baixo teor de hidratos de carbono e alto teor de gordura, não provaram, em testes realizados com um suplemento deste género e um placebo, aumentar o desempenho atlético dos participantes.
Os adeptos da dieta cetogénica, mais conhecida por keto (vem do inglês ketogenic), preferem eliminar os hidratos de carbono, apenas 5%, apostando em gorduras, cerca de 75%, mais 20% de proteínas. Eliminando os açúcares como fonte principal de energia, obrigam as células a irem buscar os seus alimentos às gorduras, incluindo as acumuladas nos pontos negros da anatomia.
Têm surgido, ao longo dos anos, estudos e opiniões contraditórios relativamente a este tipo de dieta. Uma das questões que preocupa os especialistas é o facto de se eliminar, neste regime, alimentos com sólida reputação de fazerem bem à saúde, como a fruta, alguns vegetais, leguminosas e cereais integrais. Estudos a longo prazo, baseados sobretudo em doentes epiléticos que seguiram a dieta, apontam para um risco aumentado de pedras nos rins, osteoporose, ácido úrico, além de uma possível deficiência de certos nutrientes.
Não existem, atualmente, evidências de que a ingestão aguda de suplementos cetogénicos durante o exercício traga benefícios a um atleta
Chiel Poffé, investigador na KU Leuven
Além disso, num parecer da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN), publicado na revista Nutrícias, os especialistas afirmam que, “tal como noutras terapias, a dieta cetogénica não é isenta de efeitos laterais. Desidratação, hipoglicemia, obstipação, recusa alimentar, litíase renal [pedra no rim], hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia, atraso de crescimento, entre outros, são alguns dos efeitos laterais observados”.
Nesta nova investigação, os suplementos líquidos cetogénicos não mostraram aumentar a velocidade de corrida dos ciclistas; pelo contrário, o seu desempenho foi pior depois de terem consumido a bebida do que após a ingestão de um placebo, explica a equipa.
“Na nossa opinião, não existem, atualmente, evidências de que a ingestão aguda de suplementos cetogénicos durante o exercício traga benefícios a um atleta”, afirma, por seu lado, citado pelo Washington Post, Chiel Poffé, investigador na KU Leuven, uma comunidade internacional de investigação que faz parte da Universidade de Katholieke, em Leuven, na Bélgica, que não fez parte do novo estudo.
O que os investigadores queriam perceber era se os suplementos cetogénicos, em pó ou na forma líquida, funcionavam em atletas do mundo real, tendo em conta todas as promessas que este tipo de produto oferece.
Uma vez que os nossos corpos armazenam muito mais gordura do que hidratos de carbono, as dietas cetogénicas deveriam, na teoria, permitir que atletas de resistência treinassem e corressem durante mais tempo e com mais força. Ao mesmo tempo, ingerir estes suplementos também significava alcançar de uma maneira rápida e fácil os benefícios do desempenho da cetose, um processo natural do corpo em que se produz energia a partir da gordura, quando não há quantidade suficiente de glicose disponível.
Para testar estas suposições, a equipa da investigação, publicada em abril no Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, recrutou 23 ciclistas adultos que treinavam regularmente mais de cinco horas por semana, com o objetivo de “replicar um cenário do mundo real”.
A equipa realizou, então, um estudo “muito simples”, como explica o investigador principal, Martin Gibala, fazendo dois testes de corrida separados por 20 minutos, em bicicletas ergométricas. Antes de um dos exercícios, os atletas tomaram um suplemento de cetona amplamente disponível. Para o outro exercício, ingeriram uma bebida com sabor semelhante, mas sem cetonas.
Os resultados não deixaram dúvidas: os ciclistas produziram cerca de 2% menos energia depois de ingerir a bebida cetogénica em comparação com o placebo, o que se traduziu num ritmo de corrida significativamente mais lento.
Além disso, a equipa detetou que o ritmo cardiaco dos participantes foi mais baixo após a ingestão da bebida cetogénica, sendo que os ciclistas não conseguiram pedalar com tanta força, embora o esforço feito parecesse ter sido o mesmo com a bebida cetogénica e com o placebo.
A bebida também provocou problemas de estômago e intestinais na maioria dos participates, que se queixaram de inchaço, azia e dor de estômago – efeitos adversos já conhecidos.
Apesar destes resultados, que obrigam a mais investigações, Poffé defende que as bebidas cetogénicas podem ser benéficas noutros contextos desportivos. referindo que alguns resultados de estudos realizados pela sua equipa sugerem que estes suplementos podem ajudar na recuperação de atletas após vários treinos ou corridas difíceis.
A equipa do estudo espera, contudo, que esta descoberta faça com que os atletas façam uma pausa deste tipo de suplementos antes de fazerem uma corrida, por exemplo, enquanto não são realizadas mais investigações. “Acho que é seguro dizer que não é provável que ajudem”, afirma Gibala.