“Calma. Nada de decisões precipitadas.” Carmo Gomes, epidemiologista e membro da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19, da Direção-Geral da Saúde (DGS), carrega nas teclas. “Já andam aí pessoas a dar pareceres na comunicação social” sobre a vacinação na faixa etária dos 5 aos 11 anos. “Qual a situação da pandemia daqui a 15 dias, alguém me sabe dizer?”
A questão está relacionada com um parecer que a DGS pediu a alguns especialistas – os mesmos que, no verão, avaliaram a vacinação contra a Covid-19 nos adolescentes – no seguimento de uma possível avaliação positiva que a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) está prestes a emitir sobre a inoculação desta faixa etária com a vacina da Pfizer. A Moderna também pediu para a EMA avaliar a sua vacina, mas o processo da Pfizer está mais avançado.
A VISÃO sabe que os estudos de farmacovigilância de crianças que já foram inoculadas, nomeadamente nos EUA, vão ser tidos em conta, e que indicam que as vacinas são seguras e eficazes. Note-se que a dose das crianças é menor do que a administrada nos adultos.
Carmo Gomes antecipa que o parecer da EMA “provavelmente não vai ter recomendações”, vai dizer se é “segura e eficaz” de forma “fundamentada” como costuma acontecer. Depois disso, cada país tomará a sua decisão.
A Comissão Técnica de Vacinação analisará o benefício/risco em vacinar as crianças. “Não basta que exista uma vacina eficaz e segura para decidimos vacinar milhares de pessoas”, diz o epidemiologista que, nota, “ainda não existe um país que tenha dado uma grande quantidade” de vacinas a crianças para que se possam tirar muitas conclusões.
O parecer da comissão “até pode ser que não temos informação suficiente”, mas ainda é “cedo para dizer o que quer que seja”. Mesmo entre os especialistas que avaliaram a vacinação nos adolescentes as opiniões dividem-se.
A VISÃO contactou o pediatra José Gonçalo Marques, membro desse grupo, que disse não querer “contribuir para o ruído” à volta deste tema, mantendo, “para já”, a opinião que publicou há meses no jornal Público, onde diz que a vacinação dos adolescentes “é um momento muito triste” na história da DGS.
Na sexta-feira, 19, durante a reunião no Infarmed que reuniu políticos e especialistas, Henrique Barros, investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, defendeu que a vacinação das crianças “é uma prioridade”, tendo em conta que o grupo etário é, neste momento, aquele onde há maior incidência (novos casos de infeção). No entanto, acrescentou, que esse processo só deve avançar “quando as vacinas estiverem inequivocamente aprovadas no nosso espaço geográfico e social”.
Para Carmo Gomes tudo se jogará nas próximas semanas. O número de infeções diárias, em Portugal, está a aumentar e ontem, domingo, 22, “tivemos um número alto” para o que costuma acontecer aos domingos. Daqui a duas semanas, “até pode ser relevante vacinar as crianças para debelar a situação”, mas tudo está em aberto em relação à decisão que a Comissão Técnica de Vacinação vai emitir.