O meu quarto parece uma estufa. Sinto-me completamente desconfortável e não consigo descansar e dormir devidamente. A partir das 7 horas da manhã o calor é tanto que é impossível estar deitada. A transpiração escorregue-me pelo corpo. São horas de levantar e sair.
Quando chegamos a Khiva, depois de uma viagem de 7 horas de carro (que nos custou 45 dólares americanos), decidimos que tínhamos que poupar dinheiro e, como tal, usaríamos o alojamento mais barato da cidade. Pagamos 20 dólares americanos por noite, num quarto duplo, sem casa de banho ou ar condicionado, no Ganijon Afandi. O quarto é bonito, o espaço até tem um pátio interior e o pequeno-almoço está incluído. Localiza-se mesmo no meio do centro histórico, paredes meias com o principal mausoléu de Khiva. O grande problema é o calor. Em pleno mês de agosto, as temperaturas rondam os 40º e o ar é demasiado abafado.
Khiva é uma cidade no norte do Uzbequistão, cujo núcleo histórico, completamente muralhado, se encontra magnificamente preservado. Outrora, Khiva era uma das cidades mas importantes da Rota da Seda que ligava Buhkara, no eixo principal, a um desvio para norte que abastecia a Europa a partir do Azerbaijão. No entanto, apesar de Khiva ter definhado com o final das rotas comerciais por terra, a cidade, completamente isolada no deserto, sobreviveu às investidas dos mongóis e ao domínio soviético conseguindo-se preservar arquitetonicamente.
Hoje, passear nas ruas empedradas de Khiva é como desfilar numa cidade-museu, onde cada canto parece contar uma história, onde cada madraça parece esconder um segredo e cada mesquita é uma lição de história.
Os minaretes gigantescos estão ricamente decorados com azulejos coloridos. Há minaretes inacabados e mais de vinte madraças, umas convertidas em museus, outras em hotéis ou restaurantes. As mesquitas do século X até ao século XVIII, os palácios esquecidos e um mercado de escravos ajudam a embelezar a cidade. Mas, os becos e ruelas que levam a todo o lado e ao mesmo tempo a lado nenhum e uma muralha de adobe perfeita que mantém as quatro portas conservadas, são algumas das singularidades desta cidade que nos recebeu por três dias.
Foi como se tivéssemos viajado no tempo. Tirando a dezena de turistas, especialmente europeus, que se viam nas ruas, Khiva, debaixo dos seus 40º de temperatura, era uma cidade calma e só para nós.
Maria, a dona do hotel onde ficamos, faz-nos sentir em casa e recebe-nos sempre com um sorriso nos lábios exibindo os seus dentes de ouro na boca. Serve-nos um pequeno-almoço caseiro pela manhã e empresta-nos a sua cozinha para que possamos preparar as nossas refeições do dia.
O calor, esse companheiro tão fiel da nossa aventura pela Rota da Seda, também não foi assim tão desagradável. Aquece o dia e aquece a noite. Mas também nos aquece a alma, sempre que, tal como aconteceu em Khiva, vem sobre a forma de calor humano.