Minab é uma pequena aldeia na costa iraniana do golfo Pérsico. Não fosse o facto de aqui existir um mercado semanal tradicional da etnia Bandari e esta povoação permaneceria como tantas outras: incógnitas e esquecidas nos mapas.
Há alguns anos atrás, enquanto fazia uma pesquisa sobre tribos da Ásia Central, encontrei um artigo sobre as mulheres Bandari. Na altura fiquei agarrada a um olhar. Eram uns olhos negros com grandes pestanas que sobressaiam por trás de uma máscara vermelha. A máscara colorida que a jovem exibia atraiu o meu olhar, mas foram aqueles olhos que prenderam a minha atenção e fizeram despertar o meu imaginário. Na altura pensei: o que escondem estes olhos por trás da máscara?
Hoje, no Irão, decidi ir a Minab, a tal aldeia na costa do Golfo Pérsico, a 90 km de Bandar Abbas. Chegar aqui não é difícil. Apesar de ninguém falar inglês, a linguagem gestual é mais ou menos universal e basta dizer o nome das povoações que os iranianos arranjam maneira de nos levar aos lugares.
Em Minab parece que estamos longe do Irão tradicional. A aldeia localiza-se a poucos quilómetros da fronteira com Paquistão e as pessoas exibem um tão de pele escuro e curtido pelo sol e pelo ar do mar. Às quintas-feiras, a aldeia atrai inúmeros Bandaris das aldeias vizinhas que vêm comprar gado, roupas, legumes e adereços femininos ao mercado semanal.
Há imensas mulheres que se escondem por trás das máscaras. A maioria parecem-me jovens e bonitas, mas a máscara esconde o rosto e as suas histórias. As histórias de vida destas mulheres são também as histórias desta parte do Irão. Serão negras como as suas mãos? Ou serão alegres como as cores vivas que vestem?
Numa sociedade como a iraniana não é fácil uma aproximação à mulher. A sociedade é muito estratificada e as mulheres raramente falam connosco ou se deixam fotografar. Eu, enquanto mulher, sinto uma certa facilidade neste campo. As mulheres iranianas são bastante tímidas e introvertidas mas depois de interpoladas por outra mulher abrem-se com alguma facilidade.
Em Minab as coisas não são muito diferentes. As mulheres são tímidas e na presença de um homem sentem-se expostas e intimidadas. Quando estão sozinhas sorriem, inicialmente de forma envergonhada, escondendo o rosto e o sorriso por trás do chandor colorido. Depois do primeiro sorriso vem o acenar de cabeça, um convite para uma fotografia e algumas perguntas. É aqui que a barreira linguística se torna intransponível. Elas fazem perguntas que eu gostaria de responder. Eu tenho mil e uma perguntas que gostaria de ver respondidas. Na tentativa de satisfazer a sua curiosidade digo que sou de Portugal, mesmo sem saber se é isso que me perguntam.
Olho vezes sem conta para aqueles olhos negros com pestanas grossas que se escondem por trás das máscaras. São repetidamente belos, alegres e jovens. Parecem transmitir-me serenidade e felicidade. A beleza, essa, tal como em todas as mulheres iranianas, também lá está.
Infelizmente, não encontro resposta para as perguntas que me trouxeram aqui. No entanto, encontro algo que me deixa confiante. Há centenas de mulheres Bandari neste mercado e a maioria parece-me feliz e alegre. As histórias que escondem por trás das máscaras podem ser negras, mas também podem ser alegres e eu, enquanto mulher, senti que a maioria delas vê a vida com alegria. É essa história que prefiro acreditar que cada uma delas esconde: uma história alegre e colorida, tal como as suas roupas e sorrisos parecem demonstrar.