Desço a rua até ao Jardim da Estrela. O chão ainda está húmido, mas o dia já aquece. Vamos no embalo e somos bastantes. Pais com crianças pequenas, umas ao colo, outras pela mão, fazendo gincanas para descer o passeio estreito. Desviando-nos das portas dos carros que se abrem de repente para de lá descerem mais uns quantos miúdos. Ouve-se falar francês durante quase todo o caminho. Pelo meio, descubro que há mais uma papelaria do bairro que se transformou numa pequena loja de venda de cafés de especialidade. E já está cheia de gente, que se nota à légua (não me perguntem porquê) que são nómadas digitais. Todos à espera do copo de papel que hão de levar para beber de pé, a poucos metros de um café escuro onde ainda se sentam pessoas do bairro e não muito longe da creche para cães onde vejo um homem de sotaque argentino, camisa branca e calças beges despedir-se com beijos e carinhos de um cão gordo, antes de ir para o trabalho.
O jardim já está cheio de aulas de ioga e de Pilates, dadas em inglês, e personal trainers com clientes fazendo abdominais em tapetes no chão ou usando as árvores para pendurar elásticos para exercitar os braços. Na esplanada há mais nómadas digitais de portáteis abertos, em reuniões que os ligam sabe-se lá a que parte do mundo. E onde um dia já houve um relvado, estão os dog walkers, falando encostados a bancos, enquanto os animais largam em corridas desenfreadas levantando pó.
Dou por mim a pensar que não há palavras em português para chamar a quem é pago para passear cães e que não sei se quem me lê saberá ao certo o que é “café de especialidade”. Por isso, explico-me: são cafés ácidos, com sabores fortes e descrições longas sobre os lugares de onde vêm e os aromas que têm, pagos a preços de Copenhaga e tão longe da bica como Lisboa fica da Dinamarca.
Muitos dos meus vizinhos falam em francês. O café aonde vou quase todos os dias é uma “pâtisserie” de uma francesa que, por acaso, até fala bem o português. E no ginásio todas as aulas a que vou são dadas em inglês, que é a única língua que temos em comum, no meio de uma salada de nacionalidades que vai do russo ao americano, do israelita ao brasileiro, do chinês ao turco, do alemão ao angolano.
Compro a fruta na mercearia do senhor do Bangladesh, que nunca deixa os meus filhos saírem de lá sem lhes dar um docinho. E já consegui fazer sorrir o chinês, antes carrancudo, aonde vou sempre que preciso de um carregador para o telefone.
Mas é quando desço à Baixa que não reconheço a cidade onde já vivo há tantos anos. Os portugueses desertaram do Chiado há uma década, da Baixa já tinham desistido há muito mais. Num e noutro lugar, há cada vez mais lojas de souvenirs sem alma, lixo que só está à espera de ser comprado para o ser. Os tuk-tuks competem com os peões, organizados muitas vezes em grupos, que seguem as bandeirinhas de um guia e invadem as ruas, passeios e estrada, com o vagar perdido de quem está de férias e não tem mais nada para fazer. Os carros apitam, há uns ameaços de atropelamento, mas a cena faz lembrar uma que se vê muitas vezes no Gerês, quando as vacas obrigam os carros a parar. Os ruminantes não querem saber do trânsito e os turistas também não.
Há uma tensão no ar. A mesma que me fez desistir de andar no Elétrico 28, depois de muitos dias a irritar-me com os turistas que saíam nos Prazeres apenas para voltar a entrar, convencidos de que o que para mim era um transporte era, afinal, uma espécie de carrossel, ignorando as filas, passando à frente, recusando-se a dar lugar a grávidas e idosos. Num dia de raiva, temendo cometer uma loucura, desisti. Era uma luta desigual. Nunca mais andei no 28.
Há uma cidade que está a desistir de o ser. Uma cidade plastificada, feita de lojas iguais, rostos que não nos dizem nada. Uma cidade transformada em parque de diversões, um lugar de ninguém, onde todos estão de passagem e o passado se inventa em letreiros que anunciam uma antiguidade falsificada ou nos discursos de guias que precisam de dizer as coisas pelas quais são pagos mesmo que não saibam nada. Ninguém nota. Porque ninguém se lembra. A cidade não tem memória.
Eu sou uma lisboeta naturalizada, não me entendam mal. Se alguém quiser mandar-me para a minha terra, não será para Lisboa. Mas tenho por esta cidade um amor daqueles que não se explicam, uma paixão que me tira o fôlego sempre que vejo uma nesga de Tejo a espreitar por uma viela. Fico sem ar quando estamos muito tempo longe e não consigo imaginar como é que alguém consegue gostar de viver noutro lugar.
Mas este nosso amor já dura há muito tempo e confesso que a relação não está fácil. Eu acho que não fui eu que mudei, foi ela. E há tantas coisas em que a encontro mais bonita e interessante, é verdade. Mas há tantas outras em que não a reconheço e a sinto mais distante e difícil. Parece-me que há alturas em que ela já não gosta de mim. E é cada vez mais difícil manter-me aqui.
Não quero desistir de Lisboa. Sei que será um luxo não desistir. E todos os dias sei de mais alguém que parte. Ou é a casa que não chega para a família, ou é o senhorio que despeja, ou é o emprego que apareceu no estrangeiro ou é só o sentir que a cidade já não nos quer. Às vezes, penso que no fim ficarei aqui sozinha. Sim, porque os nómadas digitais estão só de passagem e até eles começam a perder a paciência para o lixo nas ruas, os passeios estreitos e irregulares, os jardins abandonados e os preços que não param de aumentar. A um amor que começa perdoa-se tudo, mas uns tempos depois a paixão esfria e já há quem não aguente o que antes parecia suportável.
Eu sou daquelas que vão lutar pela relação. Chamem-me conservadora, antiquada, romântica, idiota. Chamem-me o que quiserem. Mas vou resistir tanto quanto puder para ficar com Lisboa. Sim, não é só “ficar em Lisboa”. É mesmo ficar “com Lisboa”, aquela por quem me apaixonei há tantos anos e que ainda me faz sentir borboletas na barriga, apesar de todas as discussões.
Às vezes, as discussões até ajudam. Enquanto vejo as notícias sobre o cabo do Elevador da Glória que se partiu, há em mim uma réstia de esperança de que se perceba que a cidade está presa por arames. Há uma réstia de esperança de que a salvem deste sucesso que tem. Sim, eu sei, sou uma romântica idiota. Mas às vezes é preciso que algo se parta para percebermos que devemos começar a colar os cacos e mudar de vida. Será que ainda vamos a tempo, Lisboa?