Não devo andar longe da realidade se disser que nos gabinetes dos primeiros-ministros e presidentes de países ocidentais, para não ir mais longe, encontraremos muito mais retratos de figuras políticas inspiradoras dos seus trajetos do que mapas. É o reconhecimento do primado da idolatria entre humanos sobre o imperativo geográfico, esse parente pobre da política internacional, reservada, ao que se diz, apenas aos estadistas. Acaba por ser, também, uma expressão egocêntrica do personalismo político, passado entre dinastias ou ambições miméticas, num culto da personalidade que diz mais sobre os políticos atuais do que os de outrora.
A ausência de mapas nos gabinetes pode ser também vista para lá da falta de humildade dos líderes políticos em relação ao que os rodeia, cuja ilusão de controlo tentam passar em relação a crises, conflitos, cataclismos ambientais, grandes vagas migratórias, domínio dos mares, cordilheiras, estreitos, infraestruturas e rotas comerciais. Neste sentido, um mapa seria esmagador para o peso que efetivamente têm, conclusão a que nenhum deve querer chegar. Não tem de ser assim. Se há uma leitura mais real da influência de um país, do poder de um Estado, do potencial de uma comunidade, da fibra de uma liderança, ela pode ser dada pela geografia, pela cartografia, pela visão de conjunto do que nos rodeia, do que nos aproxima de outros, do que nos distingue dos demais.