As sondagens voltaram a falhar o alvo e a possibilidade de um governo de direita em Espanha esfumou-se em poucas horas. Embora tenha sido o partido mais votado, o PP não tem os votos para formar uma maioria no parlamento, mesmo numa coligação com a extrema-direita. Ao mesmo tempo, o PSOE surpreendeu e consegue mesmo crescer face às últimas eleições. O seu caminho para governar é estreito, mas ainda é possível. A alternativa será repetir as eleições.
Em reação a estes resultados, o PP procurou pressionar os socialistas a viabilizarem o seu governo, argumentando que o partido com mais votos deve formar governo. O debate motivou imediatamente paralelismos com as eleições portuguesas de 2015, quando a coligação PSD/CDS foi mais votada, mas o PS conseguiu uma maioria na Assembleia da República. Os comentários de Luís Montenegro foram dos mais discutidos. “Conto que o Governo seja liderado por quem venceu as eleições porque é isso que é normal em democracia e é isso que é normal também na Península Ibérica”, afirmou o líder do PSD.
“Há uma tendência destes dias que Espanha voltou a confirmar claramente e que o PSD ainda não conseguiu entender: o repúdio pode ser um combustível eleitoral tão ou mais poderoso do que o alinhamento. Há uma fatia enorme do eleitorado que repudia a extrema-direita, é um facto”, sublinha a diretora da VISÃO. “E por cá, a resposta foi a de quem não percebeu nada. Luís Montenegro voltou a 2015, e logo na noite veio falar de ‘verdade eleitoral’, e dizer que o partido mais votado deve governar. Chumbaria a Direito Constitucional com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa!”, acrescenta Mafalda Anjos. “Em Espanha, os derrotados governam – em 2019 o PP governava em quatro comunidades autónomas onde perdeu as eleições, e agora a própria Ayuso vem ironicamente falar em anomalia do sistema”.
Para o jornalista Nuno Aguiar, este resultado antecipa as dificuldades que o PSD terá nas próximas eleições, caso mantenha a mesma estratégia em relação ao Chega. “Não sei se será um abre-olhos, porque o PSD parece estar com uma venda sobre a cara em relação ao Chega. É muito difícil encontrar bons argumentos para insistir. Não perceber quão tóxica é qualquer relação com a extrema-direita. Quando se diz que é o tema mais mobiliza a esquerda, não é apenas ficarem indignadas nas redes sociais, é ficarem irem votar mais”, explica. “Podemos dizer que há uma equivalência [entre o Chega e PCP e BE], mas se as pessoas não veem assim, só se fizerem uma guerra contra o eleitorado. André Ventura é o líder mais impopular de Portugal.”
Nuno Miguel Ropio, jornalista da VISÃO, também defendeu que “parece não ser desta que o PSD muda a sua estratégia, mesmo com estes ventos vindos de Espanha”. “O PP não obteve uma maioria, que lhe permita governar sozinho, porque não foi claro em relação ao futuro que estaria disposto a ter com o Vox. E o melhor exemplo aconteceu na Extremadura, onde Maria Guardiola do PP, a nova presidente do governo autonómico, que dizia que não iria governar com o apoio do VOX e desde há poucas semanas fez o contrário, viu o PSOE ganhar naquele território. O PSD deveria colocar os olhos no que aconteceu”, disse, salientando que, apesar do aumento residual de votos dos socialistas, a esquerda sofreu uma erosão, como aconteceu com os partidos de Esquerda em Portugal no período da Gerigonça. E mais: “Montenegro deveria estar preocupado com uma coisa; é que se o Feijóo sair devido a este resultado, facilmente há grandes quadros dos populares, como a Ayuso em Madrid, que o podem substituir. Por algum motivo, desde Passos Coelho, o PSD sofre, neste momento, com a falta de quadros com visibilidade”. “Apesar de o Sumar, de Yolanda Diaz, ter tido um bom resultado, para um partido surgido há tão pouco tempo, a verdade é que ficou longe dos resultados dos melhores anos do Podemos, que o antecedeu”, concluiu.
Caso se confirmem as exigências do catalão Junts, nomeadamente um referendo á independência, será muito difícil ao PSOE aceitá-las, o que significa novas eleições pode ser o desfecho mais provável. “O caso espanhol levanta questões legítimas: até onde é legítimo ir em matéria de acordos de governação com partidos extremistas, sejam a extrema-direita ou movimentos independentistas? A esta distância, um acordo ao centro pareceria uma solução, e há quem, como Pedro J. Ramirez, proponha mesmo um bloco central em que cada partido governa dois anos. Mas as diferenças ideológicas entre PP e PSOE são bastante mais marcadas do que entre PS e PSD, e a polarização e o apego ao poder falam mais alto, é um cenário que não se coloca”, analisa Mafalda Anjos.
O OLHO VIVO comentou ainda um relatório das Nações Unidas acerca dos planos de prevenção do Governo para a época de incêndios, revelando as muitas limitações do trabalho nacional. Tendo em conta o relatório crítico da ONU à atuação do País na prevenção e combate aos incêndios , revelado pela VISÃO esta semana, Nuno Miguel Ropio salientou que “o que está em causa é uma avaliação do relator das Nações Unidas que diz, de forma sucinta e clara, que apesar dos bons planos A e B, Portugal continua apostado em responder a este problema com base no plano S, de São Pedro, o mesmo que deu resultados em 2020 e 2021, mas que não resultou em 2022, com o maior incêndio, em 47 anos, na Serra da Estrela.
O relator também pede uma maior celeridade das ações com que Portugal se comprometeu mas que demoram a sair do papel”. “Podemos pegar no exemplo no incêndio de Alcabideche, em Cascais, esta semana, e fazer uma leitura nacional: temos ali uma área que sofreu os piores incêndios da última década e onde a vigilância, tendo em conta essa informação, falhou. E quando falha a vigilância, também falha o combate, ou pelo menos torna-se mais difícil. E isto aconteceu, infelizmente, de forma geral, no País – conhecem-se os problemas, mas os planos que existem para os combater, de alguma forma, não são eficazes porque ou não são colocados em prática ou são-no de forma lenta”, apontou Nuno Miguel Ropio.
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