168 horas e 46 audições depois, finalmente, terminou a Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão TAP. “Neste caso, o advérbio de modo não é dispensável. Finalmente acabou e já mais ninguém aguentava ouvir falar dela: nem os jornalistas, nem os deputados, nem, sobretudo, os portugueses em geral”, arranca Mafalda Anjos.
Para a diretora da VISÃO, esta CPI não trouxe novidades muito relevantes face ao que já se sabia. Há no entanto, “algumas certezas que ficaram evidentes, e há conclusões possíveis e lições a aprender de tudo isto”. “A vítima número um da CPI é essa entidade indistinta a que os radicais chamam sistema. porque tanto o PS como PSD saem mal na fotografia, pela forma como conduziram a privatização e depois a reversão da privatização. Fica também clara, no que se ouviu acerca da indemnização, uma displicência na gestão da coisa pública”, diz Mafalda Anjos.
“É uma CPI paradoxal, que começa com uma questão muito pequena e específica – que, na minha opinião, não justificava a sua existência – relacionada com uma indemnização, que depois alarga muito a sua abrangência, mas que se foca em pequenos detalhes”, aponta o jornalista Nuno Aguiar. O que ficou? Muito do que ficou claro sobre a indemnização e a responsabilidade política já era conhecido. Talvez as grandes novidades estruturais podem estar no que se soube da privatização da TAP paga com o dinheiro da empresa e a leveza com que parece atuar o SIS.”
“A CPI revelou aspetos da gestão política da TAP que revelam amadorismo e incompetência. Mas os ‘réus’ que a oposição queria atingir, Pedro Nuno Santos e Fernando Medina, acabaram por se sair airosamente. E surgiu um vilão de que ninguém estava à espera e que nada tinha a ver com o período de gestão da TAP que a CPI estava a escrutinar: João Galamba, que se viu envolvido em trapalhadas e cuja situação política se tornou insustentável…”, resume Filipe Luís. Para o editor-executivo da VISÃO, Fernando Medina reconheceu que a decisão para a demissão de Alexandra Reis da Secretaria de Estado do Tesouro foi política e não se deveu ao montante revelado da sua indemnização da TAP. “Saiu porque perdeu, naquela polémica, autoridade política. Saiu por causa do alarme. Se o motivo direto fosse a indemnização, só sairia depois de conhecido o relatório da IGF”.
Para Mafalda Anjos, outra conclusão é clara: “a demissão da gestora Christine Oumières-Widener e Manuel Beja por justa causa foi uma decisão política, mas juridicamente questionável, porque a justa cauda não tinha suporte em parecer legal e assentou apenas no relatório da IGF”. Mas o mais grave é mesmo a “negligência no manuseamento de informação classificada dentro do Governo e as dúvidas preocupantes que permanecem sobre os limites de atuação dos Serviços de Informações”, resume.
Para Filipe Luís, Pedro Nuno Santos sai, apesar de tudo, bem da CPI. “Convenceu mais pela forma do que pela substância. Afinal, ele foi principal responsável pelas falhas em escrutínio, incluindo a autorização da indemnização a Alexandra Reis, que autorizou. Mas a forma autoconfiante como se apresentou, a postura, a oratória, o facto de fazer do ataque a sua melhor defesa e a alegada preparação para enfrentar as perguntas acabaram por dominar a nossa perceção do resultado das suas audições no Parlamento”, explica.
“Pedro Nuno Santos regressa de forma vitoriosa. Entre na CPI como se não fosse nada, com uma enorme lata. Apesar de a sua falta de tacto político ter sido o pecado original que motivou a CPI e todo o caos que se seguiu, apesar de não se lembrar durante dias da mensagem, de ter feito um despacho a pedir explicações à TAP e o seu secretário de Estado ter ajudado a empresa a responder, apesar da desautorização do primeiro-ministro sobre a localização do aeroporto… Não há substituto para carisma político”, refere Nuno Aguiar.
Mafalda Anjos concorda: “Pedro Nuno Santos é como os gatos, tem sete vidas políticas. E essa ‘lata’, a auto-confiança e até a pocker face são competências essenciais na política. Não estou certa de que seja a melhor opção para o PS, porque tem dificuldade em apanhar o eleitorado mais moderado e flutuante ao centro, mas parece neste momento internamente o mais bem posicionado para suceder a António Costa. E a sua estratégia é clara – reeditar a amizade com o PCP e o Bloco”. “Uma coisa é certa: ninguém, no País real, ligou nenhuma ao que se passou na CPI, basta ver as sondagens em que o PS até sobre um ponto percentual, e o PSD não arranca nem por nada”, conclui.
Para os jornalistas, talvez seja importante “refletir sobre como é feita a cobertura destes acontecimentos”, acrescenta Nuno Aguiar. “Os media, especialmente as televisões, pegam num tema, ficam obcecados com cada detalhe dele e escavam (sem esclarecer) até toda a gente estar cansada. Depois fartamo-nos do brinquedo. É também isso, o comentário, as expectativas criadas, que permite a Pedro Nuno Santos emergir como uma espécie de vencedor de um problema que ele criou.”
Em análise neste Olho Vivo estiveram ainda a paragem de António Costa na Hungria para ver um jogo da UEFA, a reação do PCP em relação às críticas de Roberta Metsola sobre a posição acerca da Guerra na Ucrânia, a posição de João Galamba sobre o aeroporto e o racismo escancarado nas redes nas reações a um post da PSP.
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