No século IXX, assistimos ao aparecimento dum ator politico/social, que ultrapassa fronteiras, molda perceções e dita agendas: a comunicação social, também chamada de Quarto Poder.
Aquando do aparecimento da televisão, dizia-se que qualquer acontecimento que não tivesse sido transmitido pura e simplesmente não existia.
Com o advento das novas tecnologias, que encurtaram tempo e distâncias, transformando o mundo num local onde a informação circula em segundos, o jornalismo não é apenas um veículo de notícias — é um construtor de realidades.
Aquilo que chega às manchetes torna-se verdade pública e o que fica de fora, simplesmente não existe.
Os políticos podem legislar, os juízes decidir, os governos decretar, mas, sem cobertura mediática, nada disso importa, porquanto não atinge a consciência coletiva.
Daí que hoje o grande perigo da democracia está na narrativa, já que quem a controla controla o poder
Escândalos políticos nascem de investigações jornalísticas, campanhas eleitorais são ganhas ou perdidas em função da cobertura mediática, reputações empresariais e pessoais podem ser destruídas em horas.
Assustador é também o desaparecimento da figura de editor como gatekeeper , substituído por uma entidade difusa e completamente desconhecida a que se deu o nome de algoritmo. É este ser completamente desprovido de sentido de ética que confere à comunicação social um poder que extravasa a sua função básica de informação
Nunca como agora tivemos acesso a tanta informação, mas, paradoxalmente, não escolhemos livremente a informação que consumimos. É o tal algoritmo que analisa e define o que nos aparece nos diversos écrans.
Se bem que possa parecer que o individuo está a escolher o que pretende saber, a verdade é que estamos a ser vitimas dum mecanismo poderoso de manipulação que molda opiniões políticas, distorce a realidade e corrói a democracia que sempre assentou na premissa básica do debate livre e plural. Mas quando as redes sociais substituem a praça pública, o debate perde diversidade e transforma-se em eco.
Uma mensagem incendiária sobre imigrantes, uma “teoria” contra elites ou uma mentira bem embrulhada é o suficiente para que a lógica algorítmica multiplique a mensagem e a leve a milhões de indivíduos, numa viralização ao serviço da manipulação política.
Ora é neste mundo que o jornalista pode e deve exercer ainda mais o seu potencial de intermediário entre o acontecimento e a sua divulgação usando a única ferramenta que o algoritmo não domina: o contraditório.
Sem “pré-conceitos”, sem ideias pé definidas, cabe ao jornalista descobrir a verdade na virtualidade que nos rodeia.
A noticia que me levou a uma estação de televisão o fim de semana passado não teve este cuidado. Reconheço que a pressão para o imediato, a vontade de criar impacto possa ter estado na origem da falta de rigor que se traduziu numa informação que inflamou ânimos e que distorceu a realidade. Mas o jornalista, hoje mais que nunca, tem a obrigação de lutar por manter informada e formada uma opinião pública que se encontra refém dos discursos populistas, mesmo quando estes parecem inofensivos.
Naturalmente que, depois de tantos anos a aguardarem por um cartão que lhes desse a dignidade de trabalhadores regulares em Portugal, estes imigrantes, ao lerem ou ao ouvirem falar, que num jornal vinha escrito que a AIMA se prepararia para expulsar mesmo aqueles que tivessem filhos nascidos em território nacional, ficaram preocupados. Até porque toda a informação, e sobretudo toda a desinformação, em torno de novas políticas para a entrada e permanência de estrangeiros em Portugal, tem vindo a causar uma grande apreensão.
Porém, neste caso concreto, não existe caso para tal e este facto, ou seja da situação não representar qualquer perigo nem ser um atropelo à lei parece não agradar a àqueles que encaram a notícia como a informação do lado negro da vida.
Com efeito, as tais Notificações de Abandono Voluntário são emitidas automaticamente quando não estejam reunidos os requisitos para a emissão de Autorizações de Residência com base num determinado artigo da Lei. Ou seja, para quem não sabe, existem vários tipos de Autorizações de Residência dependentes das razões invocadas para a permanência em Portugal.
No caso das Manifestações de Interesse, as razões são de caráter laboral. O que se obriga a mostrar é apenas e só os documentos que atestam a situação laboral, mais todos aqueles necessários em qualquer pedido (registos criminais, local de residência, passaporte válido… ).
Se algum destes não estiver conforme, automaticamente o cidadão estrangeiro é notificado a abandonar o País e tem 20 dias para o fazer ou, caso considere haver lugar a contestação ou se tiver entretanto resolvido a situação com determinado documento (por exemplo novo passaporte), alegar e juntar documentos.
Ora se a pessoa em causa tiver filhos nascidos em Portugal e estes estiverem a seu cargo, essa pessoa é inexpulsável. Basta apresentar a prova simples de que essa é a situação. Não é difícil entender.
Já mais difícil é entender o porquê de se querer lançar o pânico e assim criar um ambiente de suspeição.
Aceitaria que um qualquer algoritmo estivesse na base duma informação deste teor, mas não jornalistas. Estes têm hoje o papel único de zelar pela pluralidade, pelo contraditório e pela verdade. Não podem demitir-se desse papel sob pena de perdermos o que tanto nos custou a atingir: a democracia.
É esta capacidade de selecionar, enquadrar e amplificar que dá à comunicação social um peso político real.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.