As guerras são devastadoras e também reveladoras. É nestes momentos que caem os panos e se expõem as essências humanas, políticas, sociológicas. A invasão da Ucrânia foi um desses momentos de clareza. Ficou claro que Putin é um ditador e um criminoso de guerra, que os ucranianos não têm qualquer intenção de se ligar à federação russa e que a Europa afinal consegue unir-se e engrossar a voz. Por cá, a situação da Ucrânia trouxe também revelações, conforme a abordagem feita ao tema da guerra. Aqui ficam seis que, no meu entender, se destacaram pela negativa.
1. A negacionista: É a abordagem de quem recusava a ameaça russa e coloca o ónus do agente provocador do lado da estratégia imperialista da NATO. Esta linha tende a confundir revolução ou insurreição popular com golpe de Estado, quando a linha política dos contestatários não é do seu agrado, e em acreditar em realidades alternativas, como a de que a Ucrânia é um país dominado por nazis e que é preciso libertar o povo desta opressão. É a linha do Kremlin e dos seus papagaios locais (por cá temos os 15 minutos de fama de Alexandre Guerreiro). Começou por ser também a abordagem do PCP. “Biden decidiu que a Rússia tem de invadir a Ucrânia quer queira quer não queira. Se não invadir a bem terá de invadir a mal”, escreveu António Filipe a 19 de fevereiro, enleando-se o partido depois em desastrosas argumentações que tardaram em reconhecer quem é a vítima no conflito e quem infringiu todas as regras da convivência entre Estados soberanos. Um rude golpe para a imagem do PCP que, uma vez mais, se colocou do lado errado da História.
2. A contextualista: Com esta estratégia perde-se mais tempo em sublinhados sobre a responsabilidade da NATO e da Europa em acalentar uma integração que supostamente viola o equilíbrio de forças Este-Oeste e acicata a Rússia a reagir a defender-se, do que a criticar e denunciar a posição do evidente agressor. Uns fazem-no por identificação com o totalitarismo de Putin, outros por desprezo pelo sistema capitalista, o que faz desta uma argumentação que une os extremos, ou seja, pode ser ouvida tanto na extrema-direita europeia como na esquerda mais radical. Foi, em parte, a abordagem do Bloco de Esquerda, que em boa hora emendou a mão e largou a tese do imperialismo quando percebeu que não colhia votos na opinião pública. Mas ainda esta semana Mariana Mortágua disse que o batalhão Azov, essa entidade mítica e supostamente omnipresente em território ucraniano (quando tinha, segundo as estimativas, entre 900 e 2 500 homens numa população de 44 milhões), iniciou uma guerra civil contra a Rússia. Onde? Na Ucrânia. Está certo.
3. A belicista: É a forma de ver dos irrefletidos que, embora não sejam mal-intencionados, se comovem tanto com a desoladora situação da Ucrânia e dos ucranianos que querem atirar de imediato a NATO para as armas (“fechem os céus!”), mesmo sendo isso uma ingerência num conflito que não é o seu e abrindo uma Terceira Guerra Mundial.
4. A submissa: É a abordagem dos que se limitam a apelar à paz e rendição, oscilando entre um discurso de Miss dos anos 80 e o egoísmo de quem pensa apenas na própria comodidade, que isto de estar sempre a ser “bombardeado” com notícias e ter gasolina pela hora da morte é complicado.
5. A hipócrita: São pessoas que antes bradavam aos céus contra migrantes e refugiados da Síria e do Afeganistão (e não queriam “cá terroristas”), mas que agora se mobilizam em caravanas de solidariedade para ir buscar ucranianos loiros à fronteira. Veja-se o que diz André Ventura, que está de “braços abertos aos ucranianos que não chegam de iPhone” e que assegura que são muito bem-vindos “aqueles que vierem por bem” e não pretenderem “dominar” Portugal. Pode ser que tenham aprendido de vez o conceito de asilo.
6. A oportunista: Sim, parece impossível, mas também há quem vá por aí. Olham para a chegada de refugiados como uma oportunidade para ter mão de obra barata ou meter na ordem os trabalhadores portugueses que “só reclamam”. Praticam a caridadezinha interesseira ao mesmo tempo que massajam os próprios egos. José Crespo de Carvalho, professor no ISCTE que assinou um lamentável texto sobre refugiados (e é cofundador da We Help Ukraine), é apenas um exemplo.
Talvez a melhor forma de olhar para isto seja mesmo a honesta: vivemos num mundo emaranhado que não se pinta a preto e branco, e onde não há soluções fáceis para problemas complexos como a autodeterminação dos povos e os jogos de interesses geoestratégicos. Mas uma coisa é certa – tem de ser certa: há agressores e vítimas nesta e noutras histórias e não podemos confundi-los.