Ao comparecer ontem na Comissão Permanente da Assembleia da República para debater os incêndios do ano mais devastador desde 2017, e ainda nos faltam umas semanas de risco potencial elevado, Luís Montenegro provou quais as prioridades do Governo, mostrou como não percebeu o que aconteceu, provou a incapacidade de resposta adequada e demonstrou a sua estratégia de sobrevivência sem qualquer assomo de preocupação com transformações estruturais nas causas das coisas.
A iniciativa foi ainda mais elucidativa quando decorreu em simultâneo com a “Universidade de Verão” da JSD, acontecimento de formação interna sempre muito acarinhado pela comunicação social, na qual com a frontalidade habitual o pragmático Castro Almeida revelou quais as verdadeiras prioridades estratégicas da governação.
Montenegro nada disse sobre a ausência de uma estratégia de prevenção de riscos ao longo do Inverno e da Primavera e ainda não desconfiou sequer que a ausência de uma militante pedagogia de comportamentos responsáveis ao longo de todo o ano tenha algo a ver com o facto de 2024 e 2025 serem já os anos com maior área ardida desde 2017.
Montenegro acha normal que a estratégia para a floresta, dita a 25 anos, tenha sido embrulhada numa discreta apresentação em Vila Real, em Março, nunca mais tenha sido lembrada e que reapareça agora como o grande bálsamo para a ausência de uma cultura de prevenção num Conselho de Ministros de Agosto com o País a arder. Tudo isto sem qualquer avaliação da execução da estratégia para a floresta 2020-30 ou do relatório relativo a 2024 do Plano de Gestão Integrada de Fogos Rurais.
A própria forma como se apresentou na Assembleia da República, acompanhado exclusivamente pela silenciada Ministra da Administração Interna, é reveladora da visão que tem dos incêndios rurais como tema sazonal. Onde está o Ministro da Agricultura responsável agora pelo ordenamento florestal, pela falta de emparcelamento ou pelo abandono da prioridade dada ao cadastro rústico, ou o Ministro da Defesa responsável pela gestão dos meios aéreos de combate aos fogos?
Até no melhor pano do Governo, a ministra do Ambiente, cai a nódoa centralista ao aproveitar a oportunidade para voltar a centralizar, com nomeações sem concurso a partir do edifício da Caixa Geral de Depósitos, a designação dos diretores de 5 parques naturais, sem a intervenção das autarquias locais como está previsto no regime de cogestão das áreas protegidas desde 2019.
Nada disto importa muito desde que a fumaça dos incêndios se dissipe e permita reatar a prioridade estratégica revelada pelo ministro Castro Almeida. Este foi de imediato enviado pelo País fora a prometer a distribuição de subsídios e apoios com as bandeiras dos cheques para os agricultores até 10 mil euros, sem necessidade de documentação e com base na declaração de testemunhas, e os apoios a fundo perdido à reconstrução de casas até 250 mil euros ou 85% do valor para além disso.
Como disse Castro Almeida na ação de formação dos jotinhas em Castelo de Vide “os portugueses vão continuar a votar no PSD se sentirem que têm mais dinheiro no bolso.”
Não se sabe até quando dura o dinheiro porque o Banco de Portugal, o Conselho de Finanças Públicas e a OCDE são unânimes em prever um regresso ao défice orçamental em 2026.
Sendo assim o que importa é garantir dinheiro no bolso até às próximas eleições. Daí os momentâneos “aumentos salariais” em Agosto e Setembro devido ao pagamento, com retroativos desde Janeiro, da ligeira redução do IRS, o bónus one-off para mais de 2 milhões de pensionistas em Setembro e, última coincidência feliz, o anúncio de que igualmente em Setembro 129 mil inquilinos vão receber, com retroativos a Janeiro, os apoios extraordinários à renda em atraso.
Depois das autárquicas não sabemos o que vai acontecer com a economia em abrandamento, as tarifas de Trump a flagelar as exportações e os apartamentos com um aumento homólogo de 24%, mas até lá pela sua transparência estratégica a traduzir o pensamento de Luís Montenegro o prémio Laranja Amarga de hoje vai para a desfaçatez de Castro Almeida.
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