Provavelmente à data em que lerem estas linhas, o caso da mãe e do padrasto franceses que abandonaram três filhos, dois deles à beira da estrada em Portugal, não tendo já o encanto da novidade, já terá sido arredado da atenção mediática e prontamente substituído por um qualquer outro que tenha a mesma capacidade de provocar sentimentos fortes no público1.
Ora, é verdade que situações em que pais abandonam filhos à sua sorte sempre existiram e existirão, creio, normalmente em situações de grande miséria humana.
O que, porém, choca neste caso não é apenas o pormenor tortuoso da pretensa brincadeira, deixando-se as duas crianças vendadas, de mochilas preparadas, à procura de um inexistente brinquedo, perto de uma estrada nacional onde facilmente poderiam ter sido atropeladas. Pelo contrário, o mais chocante é a total impassividade de uma mãe que abandona os seus filhos, sabendo-os incapazes de se defenderem seja do que for, como se de objetos se tratassem, e segue viagem, para ficar horas na mesma esplanada a quilómetros de distância e alheada do que acabara de fazer.
Contudo, ao contrário da maior parte das análises que se fizeram, considero que este caso é, apenas, um extremar de uma desconexão de toda uma sociedade que, seguindo igualmente o seu caminho, o faz completamente absorta, indiferente à dor alheia, com a qual se habituou a conviver, esperando apenas que não lhe toque à porta2.
Na maior parte das vezes, a atual solidariedade faz-se muito no sofá, confortavelmente instalados e desde que tal não represente qualquer esforço para além do mero teclar. Igualmente, a maior parte da indignação, tenha ela a natureza que tiver, é expressa por insultos vãos, para logo o motor da mesma ser esquecido e substituído pelo novo hit mediático.
O conhecimento, sólido e esclarecido, bastas vezes adquirido em livros, foi substituído pela leitura de posts e vídeos, em larga maioria de proveniência e objetivos duvidosos. Somos inundados de informação e falta-nos a formação mais básica. Faltam os princípios, faltam os valores, faltam as emoções reais. Uma troca de sorrisos genuína entre família e amigos, no âmbito de uma conversa ao vivo e a cores. A sensação de pertença a um grupo que nos relembre quem somos e da massa de somos feitos sempre que transgredimos.
Por exemplo, as redes sociais, sejam elas quais forem, ao contrário da promessa de proximidade com que se nos apresentaram, trataram de instituir um modo completamente distópico de convivência, em que as pessoas se julgam amigos apenas por colocarem um qualquer like numa publicação alheia e, do mesmo modo, se julgam no direito de escrever toda a sorte de dislates e insultos a cidadãos que não conhecem de lado algum. Em qualquer dos casos, instituíram-se modelos de convivência e a necessidade de criação de uma imagem pessoal que nada têm que ver com a realidade dos factos, como se ao mundo apenas importasse mostrar o nosso lado ótimo ou extremamente indignado mas sem que daí se retirem quaisquer outras consequências.
Até nas emoções estamos desfocados, quanto mais na inteligência. A um caso segue-se sempre outro, captando a nossa atenção para logo a perdermos. Não refletimos, não aprendemos, não pensamos realmente. Acima de tudo, sentimos pouco.
Por outro lado, no mundo virtual, onde já há gente a preferir manter um aparente diálogo com a designada Inteligência Artificial do que uma conversa de amigos, os princípios tendem a diluir-se e, com eles, os sentimentos e os elos de ligação entre os humanos e, nessa sequência, também entre a família3. Quantas vezes já frequentámos, por exemplo, restaurantes em que famílias inteiras seguram o telemóvel e não trocam uma palavra entre si, como se de estranhos se tratassem? Quantas noites passámos agarrados ao telemóvel, fazendo o designado scroll, vendo o que o algoritmo, esteja este programado como esteja, nos mostra e crendo numa realidade que inexiste, enquanto a nossa família faz exatamente o mesmo? Quantas foram as vezes em que o telemóvel, arvorado em objeto absolutamente essencial, ficou arredado de uma mesa e demos plena atenção às pessoas com quem estamos?
Daí que a total falta de arrependimento do casal, agora aparentemente apostado em alegar insanidade, não pode ser propriamente uma surpresa. É, antes, um sinal dos tempos.
Ao substituirmos o contacto e, até, o confronto com a alma humana por algoritmos que não têm valores o que podemos esperar?
1 Refiro-me, obviamente, à mãe francesa que, segundo se noticia e conjuntamente com o companheiro e padrasto, terá deixado em França um filho com 16 anos e numa floresta, perto de uma estrada nacional, outras duas crianças, desta feita muito mais novas, vindo a ser detida numa esplanada em Fátima, onde esteve placidamente durante horas. A notícia mais desenvolvida, incluindo já as medidas de coação impostas, pode ser lida, entre muitos outros sites, aqui.
2 Sem que, com este texto, se vise qualquer desculpabilização da situação em causa, caso a mesma tenha, como parece ter, os contornos avançados. Uma mãe que deixa os seus filhos naquela (ou noutra qualquer…) situação é, necessariamente, desprovida de qualquer capacidade de o ser e dos princípios mais básicos, não podendo tal deixar de merecer a necessária sanção do Direito. Se já não haveria qualquer desculpa se o abandono fosse praticado por um adulto, muito menos tal poderia suceder quando a situação é criada, com óbvia premeditação, por quem mais tem o dever de os proteger.
3 Faz-se notar que não se negligencia o valor da dita Inteligência Artificial. Pelo contrário, o que se entende é que a mesma nem é inteligência, nem muito menos é verdadeiramente artificial, uma vez que é criada sempre com inconfessáveis objetivos e tem a aptidão para diminuir a importância da Humanidade.
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