“Um boletim de voto tem mais força que um tiro de espingarda.”
Abraham Lincoln
Nesta segunda volta das eleições presidenciais, e ao contrário de muitos, não vi apenas, ou sequer a título principal, um combate entre a democracia e a ditadura. Como é óbvio, e o partido que também criou tem demonstrado, Ventura não é estruturalmente um democrata e nas suas últimas intervenções, já num tom destemperado, fez promessas de intromissões nas competências do Governo e da Assembleia da República que contrariam em absoluto a Constituição da República Portuguesa.
Ventura referiu-as, entre outras, prometendo um Governo que cumprisse as suas ordens, bem sabendo que nunca poderia fazer aquilo a que se propõe, aliás à semelhança do que tem feito ao longo da sua carreira política.
Daí que, o que me pareceu sempre estar na linha da frente não foi apenas o combate entre a democracia e uma coisa a tender para uma ditadura, mas o confronto entre a decência e a honestidade e algo que muitos, no quais não me incluo, podem considerar agradável de ouvir mas que não passa da habitualmente designada “banha da cobra”.
Desde o início desta sua carreira profissional como político, a mais longa que já teve, faça-se notar, Ventura disse e dirá algo e o seu oposto, desde que sinta que tal lhe possa trazer uma qualquer vantagem. Usa as pessoas para as deitar fora no primeiro momento em que deixarem de servir o seu projeto pessoal e faz o mesmo ao que afirma serem princípios mas que, na realidade, são meros degraus que pretende subir. O ascensor social e político de Ventura assenta em deslealdades, mentiras e ligações de mera conveniência, logo desfeitas assim que deixem de servir.
E, como é evidente, o mesmo se passa no seu partido, onde os escândalos se sucedem e onde pedófilos, condenados pelos mais variados crimes, penhorados e afins se juntam, como num clube de combate, praticando o oposto do que dizem defender e afirmando querer varrer o País de pessoas que têm, na melhor das hipóteses, exatamente o mesmo perfil que eles. O Chega está feito à semelhança das patranhas de Ventura, é composto pelos elementos que afirma querer banir e usa os mesmos métodos, com a mentira descarada e a deslealdade à cabeça.
Aqui chegados, e dito o que me parecia ter de, apesar de tudo, de ser dito, de facto a consciência e o voto têm um poder muito superior a milhares de horas de comentadores a perorar na televisão ou às paragonas dos jornais.
Ultrapassada esta segunda volta, voltemos ao que nos é essencial. Ganhando, como parece ter inequivocamente ganho, a dignidade, todas as demais questões que nos assolaram se mantêm.
Vivemos num país que inunda no inverno e se incendeia no verão, em que a carga fiscal é desproporcional face aos serviços públicos que nos são prestados e em que há um aparente divórcio entre as promessas eleitorais e o que é posto em prática. Muito mais do que as orientações dos políticos ditos de primeira linha, foi o esforço coletivo de populações inteiras, bombeiros e elementos da Proteção Civil, estes dois últimos em menor quantidade quanto a que a situação merecia, que foram salvando o que se conseguia. Quando, por exemplo, o SIRESP ou a E-Redes falharam, pessoas anónimas e solidárias estiveram lá e foram elas a fazer a diferença.
Portugal tem aquele estranho hábito de o seu povo conseguir ser maior e, se outra lição não se conseguir tirar do que se tem passado, fica a de que, em momentos de verdadeira aflição, somos sempre muito melhores do que os políticos que elegemos. Ainda que estes últimos vão à missa antes de atos eleitorais, fingindo rezar por nós. Principalmente, diria eu, quando o fazem, para mais sabendo que um ato que deveria ser de recolha e de discrição se torna público e mais não visa do que caçar uns últimos indecisos.
Reza a Bíblia que Deus, a existir, perdoa todos. Eventualmente, talvez com muito maior dificuldade aos hipócritas e aos vendilhões do templo.
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