“A nossa vida é toda feita de acasos. Mas é o que em nós há de necessário que lhes há-de dar sentido.”
Vergílio Ferreira
Conta-corrente 5
(O início do ano de 2026 trouxe-me a oportunidade de integrar um projeto lindíssimo que muito me honra. Antes de mais e porque é sempre bom relembrar, a VISÃO importa um tipo de jornalismo, sério e competente, que fará sempre falta. Que este ano seja bom para todos e, muito em especial, para os que tornam, semana após semana, este milagre possível. Ficam aqui e de forma expressa os meus votos. E o óbvio agradecimento a quem não baixou os braços e luta todos os dias, embora de formas diferentes.)
Estamos diariamente a ser confrontados com vários discursos de ódio que não visam outro qualquer objetivo que não arregimentar pessoas a favor de desígnios pessoais que nada têm de inocente e cujo principal intuito não é, ao contrário do que se diz, ajudar os cidadãos ditos de bem, seja lá o que tal queira significar. A este título, refira-se o que parece evidente a todos mas que tantas vezes esquecemos: ninguém é impoluto mas há sempre uns piores do que outros, sendo que o critério de distinção não pode ser (e nunca foi…) a raça ou a etnia, como não é o local onde nascemos ou moramos ou o dinheiro que apresentamos ter.
Chegados a um momento em que qualquer caixa de comentários de órgão de comunicação social se torna num ápice numa torrente de insultos do mais básico que há e na qual não se discute qualquer ideia ou solução, talvez fosse oportuno pensar naquilo em que nos estamos a tornar.
A Humanidade sempre foi conhecida por ser capaz do melhor e do pior. O que reclamo neste meu primeiro artigo é que, em vez de se embarcar em vídeos fáceis de redes sociais, se volte ao princípio e, já agora, aos princípios. Por exemplo, muito mais relevante do que criticar o próximo é tentar percebê-lo e, sempre que possível, ajudá-lo. A empatia, a generosidade, a honestidade e a capacidade de resistir com dignidade nas adversidades sempre foram características humanas e, muito em especial, dos portugueses.
É a esses que me dirijo, muito em especial. Volvidos os desejos da meia noite da viragem de ano, que a honestidade, a verticalidade e, essencialmente, a coragem de dizer não a injustiças, ao aproveitamento dos mais fracos, à exploração dos nossos piores sentimentos não se esgotem na última passa de uva. Que possamos ser mais fraternos. Que não sejamos mesquinhos quando a vida não nos dá o que queremos no imediato. E, acima de tudo, que o calculismo, tão usado pelos políticos, especialmente de segunda e terceira linhas, não nos toldem o pensamento e não nos afastem do caminho certo.
Ao contrário do que usualmente se diz, 2026 não é um livro em branco. Trazemos sempre as nossas vivências e memórias porque a vida não se apaga num segundo. Contudo, acredito que podemos e devemos sempre usar o fizemos para melhorar. Para recuperar a humanidade, no que foi o seu sentido mais puro.
Mais não se pode pedir. Menos não se pode aceitar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.