A morte de Jorge Palma levou-me a percorrer quase todas as suas músicas, maravilhada pela lucidez das suas palavras. Há uma música cuja letra relembrei e com a qual me identifico muito. “Otimista Cético”, onde ele escreveu sobre a saturação perante a violência exposta nas notícias e a facilidade com que o horror se transforma numa rotina visual. Esta recusa em aceitar o horror que os homens produzem como algo natural define exatamente a minha postura perante o mundo em que vivo. Declaro-me, também eu, uma otimista cética.
Assistimos diariamente ao extermínio de populações. Na Palestina, onde há quase três anos o genocídio em Gaza chega-nos em tempo real, enquanto a ocupação prossegue, a violência e a destruição entram-nos pelos olhos adentro e a comunidade internacional continua sem vontade de travar aquilo que afirma condenar. Atiram-nos areia para os olhos. A resposta global limita-se a discursos de preocupação por mero protocolo.
O mais inquietante talvez ainda seja a facilidade com que nos habituamos a tudo isto.
O último discurso proferido por Trump na ONU só comprova a ganância obsessiva e demencial pelo poder económico, desprovida de qualquer sentido ético ou humanitário.
Pessoas instruídas conseguem justificar a destruição em nome de interesses nacionais, da segurança ou de uma suposta inevitabilidade da guerra. A tecnologia, a Inteligência Artificial e os algoritmos, capazes de transformar profundamente a nossa vida, são também colocados ao serviço da indústria militar, da vigilância e da concentração de riqueza e da proliferação da miséria.
O progresso técnico não produz, por si só, progresso humano.
Em Gaza, isto tem um nome: “Lavender”. Um sistema de IA de seleção de alvos, baseado numa análise probabilística que reduz vidas humanas a pontos, com uma margem de erro que ninguém parece valorizar. Gaza tornou-se o laboratório de testes desta tecnologia, para poder ser adquirida por outros governos como tecnologia “testada e aprovada em combate”. O que poderia estar ao serviço do bem-estar coletivo está também a ser usado para matar, para vigiar e para transformar a vida humana numa variável de cálculo.
Quem vive com relativo conforto aceita isto de forma pacífica, acomodado à ideia de que a violência que está fisicamente distante é o preço a pagar pela sua estabilidade.
E assim vamos aceitando que a segurança de uns possa depender da insegurança de outros. Até chegar a nossa vez.
Esta contradição agrava-se num mundo em que as religiões, sejam elas quais forem, persistem como argumento de autoridade. Num mundo em que as decisões continuam a ser tomadas por seres humanos, invoca-se a providência divina enquanto se esmaga a vida das pessoas.
Perante a destruição planeada, fica a certeza de que nenhuma entidade externa ou intervenção divina nos salvará das escolhas que fazemos enquanto sociedade. É caso para dizer os deuses devem estar loucos.
Assumir o meu otimismo cético significa rejeitar ilusões e recusar o cinismo. Rejeito a resignação de quem acha que nada pode mudar, sem ceder à ingenuidade de esperar soluções mágicas de líderes ou instituições. É fundamental manter o pensamento crítico, apontar a cumplicidade do silêncio e continuar a exigir humanidade para todos. Só assim a vida faz sentido. Como cantou Jorge Palma: “sem arrastar atrás nem mestre nem Deus”.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.