Crescemos numa sociedade altamente competitiva, onde o valor de uma pessoa parece medir-se cada vez mais pela quantidade de coisas que consegue fazer, pela velocidade com que as faz e pela capacidade de continuar quando já não devia.
Há qualquer coisa de profundamente contraditório numa sociedade construída por seres humanos que exige a esses mesmos seres uma espécie de funcionamento mecânico.
Esperamos corpos que não falhem, cabeças que não parem, carreiras que avancem, relações que resultem. Quando alguma destas coisas não acontece, a pergunta raramente é “o que aconteceu contigo?”. É “como vais resolver?”.
Aprendemos a resolver. A funcionar. A continuar. Quase como se a dor tivesse adquirido uma expectativa de produtividade.
A exigência torna-se particularmente perversa porque já nem precisa de ser feita. A sociedade mostra-nos diariamente aquilo que parece ser uma vida conseguida e nós tratamos de fazer o resto. Comparamos o nosso cansaço com a produtividade dos outros, a nossa desordem com a fotografia alheia, os nossos dias maus com aquilo que os outros decidiram mostrar.
A pressão deixa de estar apenas fora. Passa a viver dentro de nós. É por isso que tantas pessoas sentem culpa quando descansam, quando dizem não, quando adoecem, quando não conseguem acompanhar, quando precisam de ajuda.
Não basta sofrer. Até o sofrimento parece ter uma maneira correta de existir.
Há uma espécie de vergonha associada à incapacidade de continuar. Como se parar fosse uma falha de caráter e não uma possibilidade humana. Como se o corpo tivesse obrigação de acompanhar todos os planos da cabeça. Como se uma pessoa só pudesse ser considerada forte depois de provar que conseguiu atravessar tudo sem incomodar ninguém.
É aqui que a ideia de sermos “inteiros” se torna perigosa. Porque ninguém é. A inteireza é uma imagem. Uma superfície lisa. Uma coisa que não revela o que está por baixo.
Nós somos feitos de interrupções, contradições, perdas, doenças, mudanças, pessoas que ficaram e pessoas que foram embora. Há dias em que somos capazes de tudo e outros em que uma tarefa pequena parece demasiado grande.
Isso não nos torna menos válidos. Torna-nos humanos.
Ainda assim, continuamos a premiar quem consegue esconder melhor os próprios bocados. Quem aguenta é admirado. Quem não chora é respeitado. Quem trabalha, mesmo doente, é elogiado pela dedicação. Quem pede ajuda é aconselhado a ser forte.
Há aqui uma inversão que merece ser reconhecida: passámos a chamar resiliência àquilo que, muitas vezes, é apenas falta de espaço para parar. A força existe. O problema está em medi-la pela capacidade de suportar tudo.
Uma sociedade saudável não devia precisar de pessoas invencíveis. Devia ser suficientemente humana para permitir pessoas frágeis.
É também por isso que a conversa sobre saúde mental ganhou tanta importância.
Setembro, através do movimento Setembro Amarelo, trouxe para o espaço público a sensibilização para a saúde mental e para a prevenção do suicídio. Mas a discussão não pode terminar na identificação dos sinais, no incentivo à procura de ajuda ou na lembrança de que ninguém deve sofrer sozinho.
Há uma questão anterior: Que espécie de sociedade estamos a construir quando aquilo que mais celebramos é precisamente a capacidade de funcionar apesar de tudo?
Uma sociedade cada vez mais produtiva e competitiva corre o risco de tratar como defeito aquilo que nos distingue das máquinas que construímos. A Inteligência Artificial pode processar, calcular, responder, aprender. Uma máquina pode executar sem hesitar.
Mas a sensibilidade, a hesitação, o medo, a tristeza, o afeto, a necessidade de parar não são falhas do sistema. São parte do sistema. São aquilo que nos torna humanos.
Enquanto continuarmos a colocá-los de parte em nome do sucesso, da produtividade e da eficiência, continuaremos a construir pessoas cada vez mais capazes de funcionar e cada vez menos autorizadas a sentir.
Existe ainda outro problema social que não pode ser ignorado: a saúde mental tornou-se uma conversa cada vez mais presente, mas continua a existir uma tentação para transformar o sofrimento numa disputa.
Fala-se da pressão sobre as mulheres, da solidão dos homens, daquilo que cada género foi ensinado a esconder. Tudo isso importa. A experiência não é igual para todos.
Existem desigualdades, expectativas e formas de sofrimento que não podem ser apagadas em nome de uma humanidade abstrata.
Mas reconhecer uma dor não exige diminuir outra. Não é preciso decidir quem sofre mais.
Há mulheres que passaram a vida a aprender que têm de aguentar tudo sem deixar transparecer o cansaço. Há homens que cresceram a acreditar que pedir ajuda é uma forma de fraqueza. Há dores que têm causas diferentes, manifestações diferentes e consequências diferentes.
No fim, continuam a pertencer a pessoas.
A queda não pergunta quem somos. Caímos todos.
Setembro traz o amarelo e, com ele, a lembrança de que ninguém deve sofrer sozinho.
Mas há uma contradição que não pode ser ignorada: enquanto a sociedade continuar a premiar quem aguenta sozinho, enquanto continuar a exigir funcionamento perfeito e a esconder as fraturas debaixo de uma aparência de normalidade, a sensibilização chegará sempre depois daquilo que devia ter sido prevenido.
O amarelo não devia ser apenas a cor que vemos quando alguém já não conseguiu continuar. Devia ser a cor de uma sociedade que aprendeu, finalmente, a olhar antes da queda.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.