Ontem ao fim da tarde estive no Alentejo a ver a Lua comer o Sol. Tinha uns óculos de cartão na cara, os pés na terra seca, e durante quase duas horas assisti a uma coisa que os seres humanos veneraram, temeram e registaram durante milhares de anos. O Sol foi-se reduzindo a uma unha incandescente, a luz ganhou uma qualidade estranha, metálica, que não é a do entardecer nem a de nenhuma outra hora do dia, e o calor abrandou como se alguém tivesse entreaberto uma porta noutro lado do mundo. Não vi a totalidade: essa coube apenas a uma pequena faixa do Parque Natural de Montesinho, durante 26 segundos. No resto do país, a ocultação ficou entre os 92,8% de Faro e os 99,9% de Bragança. Vi o que havia para ver de onde estava. E pareceu-me extraordinário.
Não é caso para menos. O último eclipse total visível em Portugal continental tinha ocorrido em 1912. O próximo será em 2144. Um eclipse total repete-se no mesmo ponto do planeta, em média, uma vez a cada 375 anos. Durante a maior parte da história humana, um eclipse era um acontecimento tão sério que os assírios chegavam a coroar um rei substituto para absorver o mau presságio, e Heródoto conta que, em 585 antes de Cristo, um eclipse interrompeu uma batalha entre lídios e medos: os dois exércitos, perante o dia transformado em crepúsculo, pousaram as armas e fizeram a paz. Os gregos construíram o mecanismo de Anticítera, um computador de bronze com mais de dois mil anos, em parte para prever estes momentos. Os eclipses pararam guerras e puseram reis a tremer.
E depois vieram os comentários: “Foi só isto?”; “Pensava que ia ficar escuro”; “Tanto alarido para nada”; “Não valeu a pena o engarrafamento”. Li-os ontem à noite, em publicações de jornais, em grupos, em caixas de comentários, com aquela mistura de tédio e de queixa que habitualmente se reserva a um episódio fraco de uma série ou a um restaurante que não correspondeu às fotografias. O género reconhece-se à distância. A Lua tapou 94% do Sol e houve gente a pedir o livro de reclamações.
Comecemos pela parte em que estas pessoas têm razão sem saberem porquê. Não escureceu, de facto. E não escureceu porque não podia escurecer. Mesmo a 99,9% de ocultação, a fracção de luz solar que resta é cerca de 10.000 vezes mais brilhante do que a Lua Cheia; a noite em pleno dia, a coroa solar, as estrelas ao fim da tarde, tudo isso só existiu naqueles 26 segundos, numa estrada de Trás-os-Montes. Quem estava em Évora, em Lisboa ou em Faro nunca veria escuridão, por mais limpo que estivesse o céu. Só que ninguém o disse com clareza a quem precisava de ouvir. A comunicação à volta do evento prometeu um eclipse que “transformará o dia em noite”, com ocultações “entre os 92% e os 100%”, como se a diferença entre 94% e 100% fosse um arredondamento e não, literalmente, a diferença entre o dia e a noite. A máquina de expectativas fez o que faz sempre: vendeu o máximo, entregou o real, e deixou o público a torcer o nariz.
Mas a desilusão mal informada não explica tudo, e seria confortável demais ficar por aqui. Porque o “foi só isto?” não se aplica apenas aos eclipses. Aplica-se às baleias avistadas de barco que não saltaram como no documentário. Às auroras boreais que não tinham a saturação do Instagram. Aos animais raros que tiveram o desplante de aparecer longe, de costas, com má luz. Há uma relação nova com a natureza a instalar-se à nossa frente: a natureza como conteúdo. O fenómeno natural passou a ter obrigações de performance. Deve ser rápido, deve ser fotogénico, deve caber num ecrã vertical e deve justificar o investimento de atenção, que hoje se mede ao segundo. Se não cumprir, avalia-se mal. Dão-se estrelas ao Sol como se dá a um alojamento local.
Em 1999, no primeiro Matrix, o agente Smith explicava a Morpheus que os seres humanos não são mamíferos. Os mamíferos, dizia ele, encontram um equilíbrio com o ambiente que os rodeia; nós deslocamo-nos, multiplicamo-nos e consumimos tudo até ao esgotamento, e depois passamos ao sítio seguinte. Havia outro organismo na Terra com o mesmo padrão, concluía: o vírus. Era o vilão a falar, escrito para nos incomodar. Há dias em que custa não lhe dar razão. Ontem foi um desses dias. Um vírus não contempla o hospedeiro: consome-o. E nós olhámos para um alinhamento perfeito de dois corpos celestes, ensaiado pela mecânica do sistema solar ao longo de 4.500 milhões de anos, e perguntámos se não havia mais nada.
E no entanto, no mesmo dia, milhares de pessoas encheram Bragança e as aldeias de Montesinho. Do outro lado da fronteira, em León, multidões aplaudiram o regresso do Sol, como se aplaude a chegada de qualquer coisa que se temeu perder. Houve gente que chorou, gente que se calou, gente que guardou o telemóvel no bolso sem dar por isso. A capacidade de assombro não desapareceu da espécie. O que aconteceu foi outra coisa: instalaram-lhe software por cima. O vírus do agente Smith, afinal, não vem de fábrica; inocula-se, actualização a actualização, por uma economia inteira que lucra com a nossa impaciência e definha com a nossa contemplação. Cada minuto passado a olhar para o céu, sem filmar, sem publicar, sem avaliar, é um minuto perdido para as plataformas. Elas treinaram-nos, com uma paciência que nós já não temos, para fazer scroll do mundo: dez segundos e a seguir, dez segundos e a seguir. Um eclipse dura duas horas e não tem botão de avançar. Claro que houve quem se queixasse.
A pergunta que o “foi só isto?” faz não é sobre o eclipse. É sobre nós. Um fenómeno que durante milénios pôs exércitos de joelhos passou a competir, em desvantagem, com um vídeo de 15 segundos. Não porque tenha perdido grandeza: porque nós fomos perdendo o órgão com que a grandeza se mede. E esse órgão não se atrofia por acaso. Atrofia-se porque há quem lucre com a atrofia.
O eclipse, esse, é soberanamente indiferente à nossa avaliação. Em 2144, à hora marcada há milénios pela mecânica celeste, a Lua voltará a apagar o Sol sobre Portugal. Não estará cá nenhum de nós para lhe dar estrelas. Ainda bem.
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