Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Numa das suas milhentas entrevistas “exclusivas”, na semana passada, num canal noticioso, os entrevistadores tiveram a ousadia – aleluia! – de confrontar André Ventura com o silêncio sobre o famoso “assalto” ao seu gabinete, na Assembleia da República. Indignado, ao seu estilo, Ventura fez do que identificou como uma pergunta “ao ataque”… um contra-ataque. E bradou, não sem um certo tom populista, que não falava no assalto ao gabinete, porque o seu gabinete não era o centro do mundo, que havia outros temas muito mais graves e que não era um tema que diz respeito “à sua vida” que tinha de dominar a agenda. Acontece que isto nada tem a ver com a vida, e muito menos, com a vida privada do deputado Ventura. Não foi a sua casa de banho que foi invadida enquanto ele tomava duche. A intrusão hostil num espaço privado de trabalho de um deputado eleito pelo povo não diz respeito “à vida” desse deputado, mas à vida da democracia. Trata-se de um ataque intolerável à própria democracia. Um caso muitíssimo mais grave do que as suspeitas que pendem sobre o ministro da Administração Interna – e estas também já são suficientemente graves…
Que o caso do assalto ao gabinete, um dos eventos mais graves dos últimos anos no Parlamento, até por ser um incidente inédito, se esclareça cabalmente.Ou então, Ventura deve capitalizaro tema até quea voz lhe doa.De que é que tem medo André Ventura?De que se saiba mesmo o que se passou no seu gabinete?
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Conhecendo o perfil do líder do Chega e a gestão inteligente que faz dos casos politicamente relevantes, bem como a sua habilidade para a vitimização, enquanto alvo privilegiado de um “sistema” que, contra tudo e contra todos, ele é o único que tem a “coragem” de combater, a falta de protesto ou, pelo menos, de exploração política desse assalto não faz qualquer sentido. Como se diz, “não joga a bota com a perdigota”. Mergulhado numa agenda mediática que, de forma esquizofrénica, ou se concentra, ad nauseam, num único assunto – exemplo, o caso Luís Neves – ou , por outro lado, passa de um tema para o outro à velocidade do algoritmo, o caso do “assalto ao gabinete” acabou por ficar mais ou menos esquecido ou, pior ainda, acabou por ser desvalorizado. Mas o que se passou é bem evidente: André Ventura começou por se vitimizar e, depois, perante as desconfianças que surgiram sobre a autenticidade do assalto e as suspeitas de encenação do Chega, para a obtenção de um objetivo político, o líder do Chega desistiu do tema – em vez de insistir, como mandaria a “boa consciência”, se a houvesse. E uma coisa é certa: temos de insistir com isto. Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. A comunicação social, a sociedade, as redes sociais, o cidadão comum, os memes do Facebook e as conversas de café, todos devem insistir: saber em que pé se encontra a investigação, se de facto houver alguma investigação (foram tiradas impressões digitais, interrogadas pessoas, efetuadas buscas, à procura de uma pen, apreendidos computadores?); se há suspeitos ou não; que indícios foram encontrados; para quando uma conclusão. Temos de saber quem foi que espalhou papelada, quem abriu os armários e as gavetas das imagens conhecidas, quem colocou jornais pelo chão de tacos de madeira, sobrepostos, mas com as manchetes visíveis e os cabeçalhos que identificam o órgão de informação bem à vista, quem derrubou a moldura com a Senhora de Fátima e um terço pendurado, sem que o terço se tivesse “despendurado” nem o vidro da moldura se tivesse partido, deixando identificar, sem margem para dúvidas, a figura da estampa emoldurada, etc., etc.
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Ventura começou pela denúncia e pelo protesto e, depois, observou as reações. Seguidamente, o Chega esqueceu o assunto, o Chega deseja que toda a gente esqueça o assunto, o Chega tem raiva de quem exige que as autoridades que investigam o caso deem uma satisfação… ao Chega, a vítima do assalto. E é bem estranho que Ventura reaja mal a uma pergunta cujo esclarecimento é do seu interesse: como vai a investigação? Porque não insiste o Chega no tema?
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. O caso não é um fait divers. Até podia ser, se fôssemos suficientemente benignos para classificar o “assalto” como apenas um incidente desagradável. Mas o certo é que foi um crime friamente perpetrado. (Ou não foi?…) André Ventura tinha documentos incriminatórios contra Luís Montenegro e contra Luís Neves. (Ou não tinha?…) Uma pen desaparecida continha informações capazes de provocar a demissão de, pelo menos, um deles. (Ou não continha?…) Havia informações relevantes fornecidas ao Chega pela própria PJ (o que é outro escândalo, digno de uma certidão à parte, extraída deste processo… Ou não havia?…) Ou esses dossiers foram referidos por Ventura, não por existirem de facto, mas para lançar mais dúvidas, no público, sobre a idoneidade dos governantes citados?
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Ainda que o “caso do gabinete”, um bom título para um romance de Conan Doyle ou Agatha Christie mas uma ópera-bufa na vida real da política portuguesa, tenha mesmo decorrido como (na versão inicial) André Ventura o descreveu, o Chega pode estar a ser vítima da história de Pedro e do lobo. Já aconteceu antes com “colegas” de Ventura: a facada em Bolsonaro; a orelha baleada de Donald Trump; o refluxo esofágico do próprio André Ventura: verdade ou consequência [consequência das invenções do populismo para obter simpatia e indignação]?
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Numa fuga para a frente, e face a insistências de responsáveis das bancadas do PSD e do Livre, Ventura insinuou que o assalto, se calhar, foi obra de um desses partidos. Sim, do Livre também, um partido com interesse em neutralizar informações comprometedoras sobre… Luís Montenegro! Suponhamos que Ventura tem razão: então a gravidade do caso é chocante. Mas suponhamos que foi o próprio Ventura, ou alguém a seu mando, que “desarrumou” o gabinete: a gravidade do caso não provoca qualquer surpresa.
Temos mesmo de saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Francisco Gomes, o mesmo que, naquele dia, pouco depois das sete da manhã, deu com o gabinete “vandalizado”, manteve, sem a corrigir, a sua biografia parlamentar, depois de ter prometido que o faria. Muitos dias depois de ter sido revelado que, afinal, não tem qualquer curso tirado em Harvard, a tal licenciatura continuava a constar do currículo do deputado. Mas essa húbris ficará com ele – não foi por causa do alegado curso que foi eleito. Francisco Gomes, tal como os outros deputados do Chega, foi eleito para ajudar a “limpar o País”. Como não se imaginam 60 deputados de aspirador nas mãos, quererá dizer que vêm para moralizar o País. Portanto, André Ventura é o primeiro interessado em saber o que se passou no gabinete de André Ventura. Que o caso do assalto ao gabinete, um dos eventos mais graves dos últimos anos no Parlamento, até por ser um incidente inédito, se esclareça cabalmente. Ou então, Ventura deve capitalizar o tema até que a voz lhe doa. De que é que tem medo André Ventura? De que se saiba mesmo o que se passou no seu gabinete?