A criança não dorme bem, come pouco, está irritável sem razão aparente. Em busca de respostas, os pais olham para o comportamento, para a rotina, para o stress da escola, mas raramente para um local que também pode contribuir para alguns destes problemas: a boca. Alterações do sono, alimentação e/ou comportamento podem, em alguns casos, estar associados a problemas de saúde oral ou a alterações do desenvolvimento orofacial.
É por isso que, nas consultas de Odontopediatria, a conversa deve ir muito além dos dentes, porque a saúde oral não existe isolada do resto do corpo. E a alimentação é, muitas vezes, um ponto importante nesta equação. Há uma relação bem estabelecida entre o consumo frequente de alimentos ricos em açúcar e a cárie dentária. Alimentos que aderem facilmente aos dentes, como bolachas, cereais açucarados e snacks processados, podem aumentar esse risco, sobretudo quando associados a uma higiene oral insuficiente.
O sono também pode ser afetado. A criança que respira predominantemente pela boca pode dormir de boca aberta e apresentar uma tendência a ressonar, favorecendo uma maior secura oral. Como a saliva tem um efeito protetor importante, esta secura pode favorecer o aparecimento de lesões de cárie dentária, em crianças mais suscetíveis. Além disso, alterações persistentes da qualidade do sono podem ter impacto no bem-estar, na atenção/concentração e no comportamento infantil.
Deste modo, a multidisciplinariedade em saúde é essencial. Pode haver necessidade de encaminhar a criança para avaliação por Otorrinolaringologia, de forma a perceber se existem causas mecânicas que favorecem a respiração oral, como alterações dos cornetos nasais, hipertrofia das amígdalas e/ou adenoides e desvios do septo nasal. Quando necessário, pode também ser recomendada a Terapia da Fala Miofuncional. E o que é que o terapeuta vai fazer? Vai trabalhar a função muscular orofacial e incentivar padrões de respiração nasal, através de exercícios adaptados à idade da criança.
O impacto da respiração oral pode estender-se também ao desenvolvimento das arcadas dentárias e da face. Algumas crianças podem desenvolver más oclusões, ou seja, alterações no encaixe dos dentes, como consequência da respiração oral. Em determinados casos, a intervenção precoce, com recurso a aparelhos, pode ser iniciada ainda na infância, de modo a orientar o crescimento das arcadas e melhorar a função oral. Uma mordida aberta, frequentemente associada ao uso prolongado de chupeta, ou uma mordida cruzada unilateral, em que a criança mastiga preferencialmente de um lado, podem justificar este tipo de recurso. A mastigação predominantemente unilateral pode associar-se a alterações funcionais e ao desenvolvimento assimétrico das arcadas dentárias.
Também a forma como as crianças comem alterou-se ao longo das últimas décadas. Atualmente, muitos alimentos são processados, moles e fáceis de mastigar. A maçã chega cortada em fatias e sem casca, o pão sem côdea e a carne desfiada. Alguns estudos defendem que uma menor exigência mastigatória pode influenciar o desenvolvimento das arcadas dentárias, juntamente com fatores genéticos e funcionais.
A troca de dentes de leite por dentes permanentes ocorre sobretudo devido à reabsorção das raízes dos dentes de leite. No entanto, a mastigação pode contribuir mecanicamente para este processo. Quando não existe espaço suficiente nas arcadas, os dentes definitivos podem erupcionar fora de posição, exigindo por vezes intervenção dentária.
É de salientar que a prevenção continua a estar assente nos seguintes pressupostos: alimentação equilibrada, redução do consumo frequente de açúcares, escovagem com dentífrico fluoretado e consulta regulares em Medicina Dentária.
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