Portugal joga esta terça-feira, às 18 horas, hora de Lisboa, com o Uzbequistão e, como sempre nos últimos anos, a ansiedade é grande e não parece inventada por um comentador de serviço sobre geopolítica, futebol e crises de meia-idade. Portugal-Uzbequistão. Assim mesmo. Dito em voz alta, soa menos a jogo decisivo do Mundial — que só esta organização permite com 48 seleções — e mais a jogo amigável, ou a escala perdida de Corto Maltese depois de uma noite mal dormida entre Istambul, Tashkent e um bar onde ninguém aceita cartões de crédito. Mas é mesmo futebol. Grupo K. Houston. Calor. Relvado. VAR. E Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, ainda ali, monumento nacional em chuteiras, entre o mausoléu e o patrocínio, entre o mito e a teimosia, entre a estátua e uma daquelas cúpulas azuis de Samarcanda que resistem a tudo: à erosão, aos turistas, à “carraça” do João Neves, que não larga nunca uma jogada, e aos treinadores que não sabem se a história se deve respeitar ou substituir.
Depois do empate com a RD Congo, Portugal entra neste jogo com aquele ar muito nosso: dramaticamente ofendido, como, inexplicavelmente, se percebeu nas duas conferências de imprensa dos últimos dias — primeiro na de Rúben Dias e depois na de Diogo Dalot, quando o jogador afirmou diretamente que a Seleção está blindada contra o ruído externo, sublinhando que “há milhões de pessoas que querem que Portugal ganhe e outras que não”, sem concretizar muito bem quem seriam essas outras. Vá lá, parece que o “espalha-brasas” Francisco Conceição veio amenizar as coisas. Pois parece que o mundo não quer colaborar com a nossa superioridade moral. No jogo com a RD Congo, a seleção nacional marcou cedo, sofreu tarde, dominou sem convencer e saiu de campo com a expressão de quem tinha reservado mesa num restaurante caro e acabou a comer uma bifana fria numa estação de serviço da A1.
O andor, a pulseirinha e a bifana fria
Nada de novo, portanto. O português médio conhece bem este género de epopeia: começa sempre com a convicção de que somos favoritos, passa por uma fase de irritação com o árbitro, os comentadores, a relva, a humidade, o fuso horário e a ingratidão da humanidade, e termina com a frase clássica: “Assim não vamos lá.” A diferença é que agora o “lá” já não é só a final. É também passar da fase de grupos. E é a pergunta inevitável: vamos lá com Ronaldo, apesar de Ronaldo, por causa de Ronaldo, ou levando Ronaldo como se levavam antigamente os santos nas procissões, ou seja, no andor, carregado por outros dez jogadores, não para jogar, mas para o “santo” proteger a aldeia? Ou vamos fiar-nos na pulseirinha da fé e da sorte que Montenegro ofereceu aos jogadores?
O Uzbequistão chega como estreante, que é uma palavra sempre muito perigosa nestas situações. No futebol, “estreante” quer normalmente dizer equipa simpática, organizada, sem nada a perder, da qual não conhecemos nenhum jogador, e com enorme vocação para nos estragar a digestão e provocar uma azia coletiva. O país vem da Rota da Seda, de Tashkent — não confundam com “tacho quente” —, de Samarcanda, das memórias guerreiras de Tamerlão, dos bazares, dos minaretes, das madrassas, das cúpulas azul-turquesa, dos desertos onde as caravanas atravessavam o mundo com especiarias, seda, incenso e, provavelmente, um médio defensivo muito agressivo que ninguém ainda tinha observado bem. Nós, que fomos império marítimo e demos mundos ao mundo, devíamos perceber estas coisas. Mas a nossa especialidade, nos últimos tempos, parece ser chegar ao jogo com uma esquadra de luxo e descobrir que nos falta vento e rumo.
A grande cidade de Samarcanda, essa palavra magnífica que parece feita de areia, ouro e febre, devia bastar para assustar qualquer defesa portuguesa. Foi cidade de passagem, comércio, conquista, poesia, arquitetura e mistério. O nome vem de pedra e fortaleza, o que, convenhamos, não é exatamente a melhor notícia para uma equipa que às vezes passa noventa minutos a tentar entrar por uma parede. A famosa Praça de Registan, que aparece em todas as revistas de viagens — que ainda não conheço, mas em breve vou visitar, independentemente do resultado do jogo de terça-feira, porque há muito que está nos meus apontamentos de viagens a fazer —, com as suas fachadas cheias de mosaicos e cúpulas azuis, é uma daquelas imagens que fazem o adepto e o viajante pensarem: “Bonito, bonito, era o nosso meio-campo ter metade desta harmonia.” Mas não. Nós temos Vitinha a tentar pôr ordem na civilização, Bruno Fernandes a discutir com a metafísica, Bernardo Silva a procurar uma fresta no espaço-tempo e Ronaldo, sozinho lá na frente, à espera de um cruzamento como Xerazade, já sem histórias para contar ao sultão, à espera de mais uma noite para não ser decapitada.
Xerazade na área e Corto Maltese no balneário
A comparação não é injusta. Cristiano tornou-se a nossa Xerazade invertida. Todas as noites de jogos da Seleção Nacional nos conta a mesma história: “Não foi o início que queríamos, mas isto está longe de ter acabado. Cabeça levantada e foco no próximo jogo.” Mas ele já nem vai lá com a cabeça: ou salta antes ou salta depois, mesmo fazendo o papel do herói que ainda pode decidir tudo no último minuto, saltar mais alto, calar os críticos, apontar para si próprio e transformar a idade e os golos num recorde de longevidade nos campos de futebol. E nós, como o rei Xariar, adiamos sempre a execução da dúvida. Só mais um jogo. Só mais uma noite. Só mais um recorde. Só mais um Mundial. Só mais uma bola na área. Só mais um livre direto contra a barreira, porque há tradições nacionais que não se abandonam assim, sem acompanhamento psicológico. A história, porém, começa a ficar perigosa quando o suspense já não está em saber se Ronaldo marca, mas se a seleção consegue jogar sem pedir licença ao seu próprio passado.
Roberto Martínez, por sua vez, tem o ar sereno de quem leu todos os mapas e mesmo assim entrou no deserto sem água, embora já não tenha muitas desculpas para dar. Fala de processos, equilíbrios, confiança, maturidade e outras palavras que os treinadores usam quando ainda não querem admitir que a coisa está tremida. Parece um guia da Rota da Seda a explicar aos turistas que o autocarro avariado no meio do Kyzylkum faz parte da experiência cultural. A equipa tem talento suficiente para ganhar ao Uzbequistão, à Colômbia, à nostalgia, à ansiedade e talvez até ao medo de ser grande. Mas o talento, no futebol português, é muitas vezes tratado como aqueles tapetes orientais caríssimos: toda a gente admira, compra por impulso, ou compra porque o vendedor, depois de tanto chatear e regatear, nos faz um bom preço. O problema é que depois ninguém sabe bem onde o pôr lá em casa.
E depois há Corto Maltese. Claro que há Corto Maltese e A Casa Dourada de Samarcanda, que também deu filme de animação. Quando se fala de Samarcanda — e vale também a pena ler Samarcanda, o romance histórico do escritor libanês Amin Maalouf, que explora a tensão entre a liberdade intelectual e o fanatismo religioso ao longo dos séculos —, de tesouros escondidos, mapas antigos e homens que atravessam impérios com um cigarro ao canto da boca, Corto aparece sempre, com a elegância cansada de quem já percebeu que o mundo é uma conspiração narrativamente interessante. Portugal precisava de um Corto Maltese naquele balneário. Não para marcar golos, que isso hoje em dia exige quase um GPS, preparação física e contrato de imagem, mas para dizer uma daquelas frases secas antes do jogo: “Meus senhores, o tesouro não está onde vocês pensam.” E talvez o tesouro não esteja mesmo no pé direito de Ronaldo, nem no sistema táctico, nem na aritmética do grupo. Talvez esteja numa ideia muito mais simples e revolucionária: jogar futebol como se os jogadores tivessem autorização para se libertarem da biografia do seu capitão.
A armadilha exótica e o apocalipse em directo
O jogo com o Uzbequistão é, de facto, decisivo porque Portugal fez questão de o tornar decisivo. Fazemos muito isto. Transformamos uma estrada larga numa ponte suspensa, depois queixamo-nos da vertigem. A seleção podia chegar tranquila, mas chegou com as sobrancelhas franzidas. Podia olhar para os uzbeques como adversário respeitável, mas vai provavelmente olhá-los como armadilha exótica. E será. Todas as equipas estreantes trazem consigo uma forma especial de insolência: ainda não sabem que têm obrigação de perder contra nós. Correm, acreditam, defendem, levantam a cabeça e, de repente, o país inteiro está a gritar para a televisão contra um lateral chamado Abduqualquercoisa, que nunca tinha entrado nas nossas preocupações domésticas, nem nas dos comentadores de futebol da CMTV.
O mais cómico, e também o mais trágico, é que Portugal tem uma das melhores gerações de futebolistas da sua história e continua a comportar-se como se estivesse sempre a disputar um lugar na última carruagem do comboio dos qualificados. Temos jogadores em clubes de topo, campeões europeus, médios que pensam o jogo com a clareza de arquitetos, extremos que podiam abrir defesas como se fossem portas de hotel em Las Vegas. Mas basta a bola não entrar durante vinte minutos para regressarmos todos à Idade Média emocional: o selecionador é um impostor, Ronaldo é um problema, Ronaldo é a solução, o 4-3-3 é uma fraude, o 3-4-3 é uma maçonaria, o árbitro é suspeito, o comentador não percebe nada disto e a prima do Facebook já avisava, pelo menos desde o particular com o México, em março, na reabertura do renovado Estádio Azteca.
Na próxima terça-feira, portanto, não jogamos apenas contra o Uzbequistão. Jogamos contra o peso da estátua, contra a tentação da lenda, contra a mania de confundir respeito com dependência, contra a nossa irresistível vocação para fazer de cada Mundial uma telenovela com orçamento de superprodução rodada em Palm Beach ou em outro lugar qualquer e um argumento escrito em cima do joelho nos relvados da Cidade do Futebol, no Jamor. Do outro lado virá uma equipa da Ásia Central, com o orgulho de quem entrou pela primeira vez no grande bazar do futebol mundial e não pretende certamente ficar apenas à porta a vender souvenirs. Do nosso lado estará uma seleção obrigada a provar que ainda sabe viajar sem se perder no próprio mapa.
Podem ir para a praia à vontade
Se ganharmos, voltaremos a falar de candidatura ao título, génio coletivo, reação de campeão e “resposta à portuguesa”, essa entidade mística que aparece sempre depois de termos feito asneira e deixado toda a malta em angústia. Se empatarmos, abrir-se-á o ciclo nacional do apocalipse: painéis especiais, antigos internacionais indignados, debates sobre liderança, grafismos com setas vermelhas e a inevitável pergunta sobre o banco de Ronaldo, formulada com a prudência de quem pergunta a um sultão se já pensou em mudar de palácio, mesmo vivendo na Arábia Saudita, e levar consigo o treinador. Se perdermos, nem as histórias de Xerazade nos salvam. Serão mil e uma noites de programas desportivos, todas iguais, todas intermináveis, todas com alguém a dizer: “Eu bem avisei.”
A beleza disto tudo é que o futebol ainda permite esta loucura. Um Portugal-Uzbequistão em Houston pode transformar-se, com a dose certa de ansiedade e delírio, numa viagem pela Rota da Seda, num conto oriental, numa aventura de Corto Maltese, numa depressão nacional mesmo depois do chumbo do pacote laboral e numa sessão coletiva de psicanálise sobre Cristiano Ronaldo. O Uzbequistão e a cidade de Samarcanda ficam longe, mas os seus mistérios estão estranhamente próximos: cúpulas azuis, pedras antigas, tigres desenhados nas fachadas, caravanas no deserto e homens que insistem em procurar tesouros onde talvez só exista pó. Portugal também anda à procura do seu tesouro. Pode encontrá-lo esta terça-feira, se perceber que a lenda é bonita, mas a bola, essa pequena tirana redonda, não acredita em monumentos. Só acredita em jogadas, movimento e, sobretudo, golos. E, por mim, podem ir para a praia à vontade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.