A classificação dos videojogos também evolui. E ainda bem.
Durante muitos anos, falar da classificação etária de videojogos era relativamente simples. O objetivo passava sobretudo por informar pais e consumidores sobre o tipo de conteúdos presentes num jogo: violência, linguagem imprópria, medo, discriminação ou referências sexuais. Foi precisamente para esse efeito que nasceu, há mais de vinte anos, o PEGI (Pan-European Game Information), hoje utilizado em Portugal e em dezenas de outros países europeus como principal sistema de classificação etária para videojogos.
Mas o mundo digital mudou profundamente desde então. E os videojogos também.
Hoje, os videojogos já não são apenas experiências individuais e estáticas. São ambientes digitais vivos, sociais e em permanente evolução, onde milhões de jogadores comunicam entre si, criam comunidades, participam em eventos em tempo real e realizam compras dentro do próprio jogo. Em muitos casos, os videojogos tornaram-se verdadeiros espaços de interação social digital.
Perante esta transformação, limitar a classificação etária apenas ao conteúdo visível num jogo deixou de ser suficiente.
É precisamente por isso que o PEGI implementou, este mês, a maior atualização da sua história. Pela primeira vez, o sistema europeu de classificação passa a refletir não apenas aquilo que aparece no ecrã, mas também determinados riscos associados à própria experiência de interatividade digital.
Na prática, isto significa que os consumidores e as famílias passam a ter acesso a informação mais detalhada sobre elementos como: a interação com outros utilizadores; presença de compras dentro do jogo; conteúdos gerados por utilizadores; ou sistemas de compras aleatórias pagas (frequentemente conhecidos como “loot boxes”), os quais passarão, em regra, a receber classificações etárias mais elevadas, designadamente PEGI 16 ou PEGI 18, consoante os elementos presentes no jogo.
Esta evolução representa um passo importante para tornar a classificação dos videojogos mais próxima da realidade digital contemporânea.
Num momento em que a proteção de menores online ocupa um lugar central no debate público europeu – incluindo em Portugal – importa reconhecer que os instrumentos de autorregulação também evoluem, se adaptam e respondem às novas preocupações da sociedade.
Ao contrário da ideia, por vezes transmitida, de que os videojogos permanecem num vazio regulatório, a realidade é bastante diferente. O setor europeu tem vindo, ao longo dos anos, a reforçar mecanismos de informação, transparência e proteção dos utilizadores, sobretudo dos mais jovens. O próprio PEGI é hoje um dos sistemas de classificação etária mais reconhecidos e consolidados da Europa, através das suas práticas de autorregulação e corregulação.
Esta atualização demonstra precisamente isso: a capacidade de adaptação de um sistema europeu que compreende que jogar em 2026 não é o mesmo que jogar em 2003.
Mais importante ainda, esta revisão mostra que a proteção dos menores em ambiente digital não se faz através de soluções simplistas ou de mensagens alarmistas, mas sim através de ferramentas claras, proporcionais e informadas, que permitam às famílias compreender melhor os ambientes digitais onde os mais novos participam.
Naturalmente, nenhum sistema substitui o papel dos pais, da literacia digital ou do acompanhamento familiar. Mas sistemas de classificação modernos e transparentes são instrumentos fundamentais para apoiar decisões conscientes.
A evolução do PEGI deve, por isso, ser vista como aquilo que realmente é: um sinal de maturidade de um setor que reconhece a complexidade dos ambientes digitais atuais e que continua disposto a evoluir para responder às expectativas da sociedade. Porque proteger melhor também passa por informar melhor.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.