Em 11 de Julho de 1964, Sophia de Mello Breyner disse “a obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida”. Não pode como tal viver separada da política. A ideia de que a arte deve estar fora da política é uma ideia que tem vindo a ser muito propagada nos últimos dois anos, mas é uma ideia perigosa, é uma ideia que contribui para o apagamento de parte da História. É defendida por muitos que defendem o comportamento de Israel na Palestina, na Cisjordânia, no Líbano. Os artistas que se atrevem a criticar Israel são criticados e julgados.
Também dentro do mundo dito artístico existe quem afirme que se devia manter a política fora da arte. Um caso recente foi o de Wim Wenders, um realizador pelo qual tenho o maior apreço, para mim um dos melhores realizadores de todos os tempos e que, no entanto, na Berlinale de 2026, defendeu que os cineastas se deviam manter fora das ideias políticas, e que a arte era o oposto da política. Esta posição foi muito criticada por muitos atores, inclusive Susan Sarandon, despedida pela sua agência por defender o direito de existência do povo palestiniano face ao genocídio a ocorrer na Palestina.
Ao longo da História, a arte foi sempre política, os artistas através das suas diversas formas de expressão travaram muitos combates políticos, na música, na pintura, no cinema, na literatura. Negá-lo é esquecer a História.
Um dos exemplos evidentes de como a arte é política é a Guernica de Pablo Picasso. Uma das obras de arte mais conhecidas, criada na sequência do bombardeamento de Guernica pela Luftwaffe nazi em apoio ao general Franco a 26 de abril de 1937. Uma obra antiguerra e antifascista. Posições políticas estas que não a tornam menos arte.
Outro exemplo ainda na pintura é a obra de 1964 de Norman Rockwell, The Problem We All Live With, baseada numa foto de Ruby Bridges, uma criança de 6 anos a ser escoltada por quatro US Marshalls para uma escola no Mississippi, no período do segregacionismo. Esta pintura, de Norman Rockwell, um dos grandes artistas americanos do século XX, apareceu na sequência de ele ter terminado o seu contrato com o Saturday Evening Post, porque o limitavam, limitavam o que ele podia e queria retratar – os problemas da sociedade americana dos anos 60, sendo o segregacionismo um dos seus maiores. O jornal censurava o artista porque ele com as suas obras de arte demonstrava claramente como era a sociedade americana daquele período, uma sociedade racista, segregacionista. A sua obra de arte, a sua obra política é de um caráter importantíssimo pois retrata as dificuldades das crianças jovens negras no acesso à educação, tendo de ser protegidas só para poderem entrar numa escola.
Mais recentemente, Banksy – um dos artistas mais conhecidos, artista de rua, ativista político, anti-imperialista, antiguerra e antifascista, admirado internacionalmente pelas suas obras totalmente políticas. Um dos exemplos mais claros é o Show Me the Monet, em que utiliza as obras de Monet e as usa para criticar a situação mundial. Numa delas o artista mostra os jardins japoneses de Monet, só que a água está poluída com petróleo numa crítica direta à poluição, ao negócio do petróleo, ao capitalismo, e aos governos que nada fazem para combater a poluição e as grandes empresas que estão a destruir o planeta.
Também Ai Weiwei, artista contemporâneo chinês, crítico do regime, das posições do governo chinês sobre os direitos humanos, a democracia, voz crítica das posições de inúmeros governos sobre os maltratos a refugiados. Artista com inúmeras instalações, exposições e instalações relativas às tragédias na China e à crise migratória e à inação de diversos governos. Uma obra emblemática é The Law of the Journey, uma instalação de um barco insuflável, com cerca de 230 metros, onde estão representados 258 refugiados, cujas faces não têm identidade. Trata-se de uma obra de cariz inegavelmente político e tão atual, contra as políticas de migração europeias, em que os refugiados são tratados como fardos de que todos se querem livrar, pessoas de segunda.
No cinema também a política faz parte da identidade da sétima arte. Um dos aspetos mais importantes do cinema é a capacidade que tem de expor os problemas das nossas sociedades. Uma das vozes mais influentes do Cinema Novo, Glauber Rocha é um dos exemplos entre muitos. Perseguido pela ditadura por ser considerado subversivo, exilado em Portugal em 1971, perseguido também em Portugal pelo regime brasileiro. Existem documentos, divulgados em 2014, que provam que a ditadura o queria matar enquanto ele se encontrava no exílio em Portugal. O seu filme Deus e o Diabo na Terra de Sol de 1964, apenas um dos muitos importantes, é uma história sobre a procura da justiça e da liberdade, representativa da sociedade pós 1930s no Brasil, numa crítica forte à violência, ao capital e às políticas da época.
A obra de Glauber Rocha sempre foi política, a sua arte sempre foi política. Ele retrata nos seus filmes a condição humana, a sociedade brasileira, num tempo de enormes mudanças, de enormes perigos. Ele próprio descreve isto mesmo: “Porque o cinema, é a consciência nacional, é o espelho intelectual, cultural, filosófico da nação.”
A arte é ainda política porque o Estado intervém nela, tentando silenciá-la. Um bom exemplo disso é o McCarthyism nos Estados Unidos, que a partir de 1947 e durante os anos 50, teve um impacto enorme na produção cultural e cinematográfica americana, perseguindo e reprimindo nomes importantíssimos da cena artística e intelectual só porque tinham posições diferentes das do governo americano. As listas de McCarthy continham nomes como Dalton Trumbo, Paul Robeson, Howard Koch, Leonard Bernstein, Richard Attenborough, Harry Belafonte, Luis Buñuel, Bertold Brecht, Danny Kaye, Joseph Losey, Arthur Miller, Charlie Chaplin, Jean Seberg, entre inúmeros outros blacklisted.
Um caso particular deste período que afetou também o cinema foi o de Elia Kazan, ex-membro do Partido Comunista entre 1934 e 1936, que denunciou os nomes de vários colegas às comissões, traindo amigos como Clifford Odets, J. Edward Bromberg, Paula Miller, entre vários outros. O caso de Elia Kazan ficou conhecido devido nomeadamente às intervenções de Orson Welles, que embora o considerasse um excelente realizador, recusava falar sobre ele, por ser um traidor, nas palavras dele: “He is a man who sold to McCarthy all his companions at a time when he could continue to work in New York at high salary. And having sold all of his people to McCarthy, he then made a film called On the Waterfront which was a celebration of the informer. And therefore, no question which uses him as an example can be answered by me.”
O que resulta claro das palavras de Orson Welles é o quanto o cinema é político, pois que Kazan, no seu incrível filme On the Waterfront (Há Lodo no Cais), glorifica o traidor, numa afirmação também ela de forte cariz político.
Na música existem inúmeros, infinitos exemplos de intervenção política, artistas que sempre falaram e falam sobre as grandes questões e injustiças no mundo, destacando-se atualmente, entre muitos outros, Roger Waters dos Pink Floyd. A música pode ter, inegavelmente, uma função política. As canções de intervenção portuguesa são outro caso. Os Vampiros, de Zeca Afonso, escrita em 1963, é um dos primeiros cantos políticos em Portugal. O cantor critica a elite governativa da ditadura que explora o povo, “Eles comem tudo e não deixam nada.” Critica diretamente o regime, “São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei”. Mostra um povo indefeso que vê o regime a tirar-lhes a vida “Vêm em bandos com pés veludo / Chupar o sangue fresco da manada”. Ataca, confronta a ditadura portuguesa por aquilo que fez ao povo português, pelas mortes que provocou, pelas fomes que provocou, pelos presos que deixou, por todos aqueles que fez sofrer.
A Trova do Vento que Passa, de Manuel Alegre, retrata a vida dos imigrantes exilados no estrangeiro, forçados pela ditadura a viverem fora porque eram perseguidos politicamente, porque as condições de vida em Portugal eram terríveis, porque precisaram de fugir para sobreviver, porque eram contra a guerra e não queriam morrer jovens por um país que não os respeitava, que ignorava os seus mais básicos direitos. O poeta descreve “Há quem te queira ignorada / E fale pátria em teu nome. / Eu vi-te crucificada / Nos braços negros da fome”. Alegre também escreve da fome, do atraso do país, “Quatro folhas tem o trevo / Liberdade quatro sílabas. / Não sabem ler é verdade / Aqueles pra quem eu escrevo.” No entanto, termina com a força da resistência, a força daqueles que lutam para um país livre e justo: “Mas há sempre uma candeia/ Dentro da própria desgraça/ Há sempre alguém que semeia/ Canções no vento que passa/ Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não.”
Quem diz que a arte não deve ser política apaga a História toda da resistência portuguesa, resistência que se fez grande também pela música, pela poesia.
Ainda porque próximos do festival da Eurovisão e do boicote de vários países europeus devido à participação de Israel, também é tempo de lembrar uma das grandes canções portuguesas, A Desfolhada interpretada por Simone de Oliveira na Eurovisão de 1969 em Madrid, e escrita pelo grande poeta Ary dos Santos, que, ficando em Portugal, combateu abertamente a censura e a ditadura através da sua arte.
A Desfolhada pega na tradição da desfolhada do milho, usando esta tradição como a metáfora para a identidade do País sobre o regime da ditadura, uma identidade de suposto puritanismo, que o povo deve seguir e que, no entanto, o regime não segue. A música desafia os tabus morais, defende a intimidade, o prazer e a vida, “Meu corpo lindo / Meu fogo posto / (…) / Quem faz um filho / Fá-lo por gosto.”
Além da música a interpretação sentida de Simone de Oliveira em plena ditadura, em Espanha, que também se encontrava sobre um regime fascista, foi um momento político, que transcende a arte.
Na literatura, uma referência para Guerra e Paz, de Leo Tolstoy. Um pacifista que denunciou ao longo dos anos a aliança das oito nações durante a rebelião bóxer na China, a guerra filipino-americana, a segunda guerra Boer, acusando os países cristãos (as potencias Europeias) de fomentarem chacinas e acusando-os da brutalidade cristã. No seu Guerra e Paz, faz a crítica das altas sociedades, dos líderes políticos afastados da realidade, moralmente ambíguos. Ataca a ideia dos grandes homens que lideram as suas tropas na guerra e que sozinhos as vencem através da sua força e mestria, para Tolstoy as trajetórias históricas são lideradas pelo coletivo e não por um homem. Esta obra, um dos grandes clássicos da literatura, é primeiramente um tratado político. Tal como o cinema, também a literatura tem de ser política, porque é a consciência da nação.
A arte é o espelho da sociedade. E a sociedade é antes de mais uma sociedade política, onde existem milhares, milhões de pessoas a viverem na rua, sem condições, onde existe a fome, a sede, onde a dimensão e a dignidade humana de muitos é esquecida, onde o que importa é o lucro, onde ainda existe a guerra. Como é possível que em 2026 se esteja novamente em guerra e assistamos à mesma como se fosse normal? A arte tem como função essencial a exposição de todas estas realidades. Um artista que pretenda não fazer política está a fazer política, a política do silêncio, a política da negação, da negação da sua própria arte.
Negar a um artista a possibilidade de politizar a sua arte é silenciá-lo. Aqueles que querem cancelar os artistas que através da sua arte intervêm politicamente representam as forças mais retrógradas da nossa sociedade, são os que querem acabar com a liberdade de expressão.
A ideia de que a arte não é política e que os artistas não deviam tomar posições políticas é uma ideia radical e uma das mais perigosas do século XXI, porque pretende calar, apagar, aqueles que expõem, intervêm e lutam pela dignidade da vida humana, pela igualdade e pela liberdade.
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