“A única coisa que muda é a velocidade com que as coisas mudam”. Daniel Sánchez
Há alguns anos, acreditávamos que o futuro nos tornaria inevitavelmente mais livres e mais conscientes. A tecnologia prometia libertar-nos do peso do quotidiano, aproximar pessoas, democratizar conhecimento e ampliar possibilidades. Em muitos aspetos, conseguiu: nunca tivemos tanta informação disponível, tantas formas de comunicação ou tanta facilidade em aceder ao mundo global. Mas, talvez, a pergunta mais desconfortável e inquietante seja outra: será que progredimos mesmo assim tanto?
O ser humano gosta de acreditar que progresso tecnológico é sinónimo de progresso humano, como se cada inovação viesse automaticamente acompanhada de uma realidade essencial e indispensável, de maturidade emocional ou maior consciência individual e coletiva. Mas basta observar ao nosso redor para perceber que continuamos presos a muitos dos mesmos mecanismos básicos de sempre que nos levam a um estado de alerta permanente e, simultaneamente, ausentes do tempo e do espaço e a viver com base em expectativas.
A necessidade de pertença transformou-se em obsessão por validação digital. A comparação social ganhou filtros, algoritmos e métricas públicas. A ansiedade deixou de vir apenas da vida real para passar a habitar também um espaço virtual onde todos parecem mais felizes, mais produtivos, mais bonitos e mais realizados do que nós.
O virtual passou, naturalmente, a ter um poder imenso sobre a nossa vida: mostra-nos o que devemos e não devemos comer, o que devemos e não devemos vestir, a cidade que devemos ou não devemos visitar. Os influencers (que só o são, porque nós permitimos) passaram a ser donos do nosso comportamento a partir de tendências e rotinas editadas. Hoje temos aplicações para meditar, dormir, respirar, organizar emoções e monitorizar hábitos, porque até o descanso parece precisar de gestão e desempenho e nós perdemos a capacidade de o fazer sem baixar a app da moda. E há algo quase irónico nisto tudo: quanto mais ferramentas criamos para poupar tempo, menos tempo sentimos ter. Quanto mais conectados estamos, mais dispersa parece a nossa atenção. Quanto mais opções de produtividade e entretenimento existem, maior a sensação de solidão e insatisfação permanentes.
Talvez porque continuamos a procurar aceitação, a ter medo de exclusão e, inevitavelmente, a construir identidades a partir do olhar dos outros e da quantidade de notificações que somam no ecrã do telemóvel. Esta forma de estar, ser e viver o real, levou-nos a aumentar a capacidade de produzir, consumir e acelerar, mas a diminuir a capacidade de pensar, raciocinar, lidar connosco e de estabelecer uma conexão real e verdadeira com o outro.
Talvez não estejamos perante uma melhor versão do ser humano, mas apenas perante uma atualização amplificada daquilo que sempre fomos: a tecnologia não criou vaidade, impulsividade ou necessidade de reconhecimento — apenas lhes deu palco, alcance e algoritmo.
No fundo, talvez o chamado “cérebro 5.0” seja isto: um cérebro tecnologicamente avançado, mas emocional e conscientemente ainda muito primitivo. Um cérebro capaz de criar inteligência artificial enquanto continua, contundentemente, incapaz de tolerar silêncio, frustração ou desaceleração. A verdade é que nos tornámos altamente eficientes a mostrar vida, opinião, produtividade e felicidade, mas cada vez menos capazes de as sentir sem audiência.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.