O recente ataque que foi alvo a Marcha pela Vida, através do arremesso de um “cocktail molotov”, obriga-nos a refletir sobre o momento em que tal ocorre. Nem vamos equacionar as consequências terríveis que poderiam ter ocorrido caso o objeto incendiário tivesse obtido os efeitos aparentemente pretendidos. Não se trata de ponderar que valores estavam em equação na dita manifestação, nem tão pouco pretendemos elevar a inquestionável liberdade de manifestação e de expressão.
O ataque de que foi alvo a manifestação do passado dia 21, através do arremesso de um engenho incendiário trouxe à memória acontecimentos recentes e igualmente violentos que sucederam num passado próximo, na sequência da morte de Odair Moniz.
Este engenho incendiário constitui uma arma de fabrico artesanal, projetado para causar profundos danos através do fogo, sendo considerado extremamente perigoso. O seu uso ocorre normalmente em conflitos urbanos e assume a natureza de crime grave pelo risco que comporta, podendo causar ferimentos graves e morte. É classificado coo arma proibida por ser explosivo e incendiário.
Eventos recentes recordam o seu uso contra esquadras da policia em viaturas e montras, como ocorreu em 2024 em Portugal e em França durante o movimento dos coletes amarelos, provocando danos significativos no espaço público e profunda perturbação na ordem pública.
A sociedade portuguesa tem sido poupada a esta ações violentas e criminosas. Contudo, em momentos de acesa discussão pública em matérias mais extremadas, as atitudes exacerbam-se e radicalizam-se, com os distúrbios a pôr em causa, vidas e património.
A violência urbana surge em contexto de exclusão social e desigualdade, de revolta e injustiça, contribuindo as redes sociais e a difusão de notícias falsas para o seu desencadear. Aqui nasce o radicalismo que constitui o combustível para o seu desenvolvimento.
Normalmente, não é o debate público que incita a estas atitudes. Mas a conjugação de fatores como a tensão urbana e a insegurança, a imigração e o crime, as medidas ambientais e as ações de ativistas, a exclusão e a desigualdade pode dar um significativo contributo.
É expectável que o debate público seja polarizado e mediatizado. Em democracia, as liberdades de todos, perante a universalidade de opiniões, não devem amplificar reações que ponham em causa o espaço comum. A preocupação deve estar assente na origem e nos protagonistas – se resultam de ações coletivas e organizadas ou ação pontual.
O radicalismo por si não resulta em violência. Mas pode contribuir para a sua verificação e crescimento. Tal implica que devemos estar atentos aos sinais, monitorizar as suas origens e controlar a sua ocorrência. Essas ações podem pôr em causa a ordem pública e os valores que caraterizam a democracia.
O radicalismo apoquenta, mas a democracia sustenta.
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