O governo quer fechar as urgências de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira e encaminhar para o já saturado Hospital Beatriz Ângelo (Loures). O Hospital de Loures poderá duplicar o número de urgências, partos e receber grávidas dos concelhos de Benavente (2 horas em transportes públicos com vários transbordos e 50/60km de automóvel com portagens) e de mais 4 concelhos, passando a servir mais de 600 mil pessoas. Este é um retrocesso claro não só para as populações dos cinco concelhos servidos pelo Hospital de Vila Franca de Xira, como também para quem vive em Odivelas e em Loures. É, para além disso, um atestado da falta de soluções do governo para a área da saúde após dois anos de governação.
O encerramento das urgências de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira (HVFX) foi anunciado sem ouvir os autarcas nem a população. Não se constitui como uma solução estrutural, mas sim uma medida paliativa e desesperada para mascarar a incapacidade do Estado em reter recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ao centralizar o atendimento no Hospital Beatriz Ângelo (HBA), em Loures, o Ministério da Saúde opta por um penso rápido que não resolve a hemorragia de profissionais para o setor privado, que tem vindo a expandir-se agressivamente na região com novas unidades da CUF, Luz e, muito particularmente, do Hospital Lusíadas Campera, no Carregado, que dispõe de maternidade própria.
Esta decisão torna-se ainda mais incompreensível quando sabemos que o Hospital de Vila Franca de Xira (HVFX) é uma unidade recente, inaugurada em 2013, dotada de excelentes condições estruturais e equipamentos modernos especificamente projetados para servir a região. Uma maternidade reconhecida como de excelência pelo Sistema Nacional de Avaliação em Saúde (2014), Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (2016) e um dos melhores do país pela Entidade Reguladora da Saúde (2019). Desperdiçar a capacidade de uma infraestrutura com pouco mais de uma década de vida, que ainda se encontra no seu auge operacional, em favor de uma unidade já congestionada, é um exemplo de gestão pública ineficiente. Até 2024, o número de fechos das urgências de ginecologia no HVFX era residual, o que prova que a infraestrutura tem capacidade de resposta e que o problema atual é exclusivamente de gestão de capital humano, exacerbado pela concorrência direta de novos hospitais privados que absorveram as equipas do setor público.
Com esta concentração, o Hospital de Loures passará a servir uma população de cerca de 620 mil pessoas. Em termos comparativos, este rácio é desproporcional quando olhamos para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que serve sensivelmente metade desse contingente populacional. Terá o HBA capacidade instalada, seja nas suas salas de espera, estacionamento para ambulâncias e gabinetes de observação para receber quase o dobro do fluxo atual? Os números de 2023 (ano em que ainda não existia rotação de fecho de urgências) mostram que o HVFX realizou 1.618 partos e o HBA 2.219. Somados, ultrapassam os 3.800 partos, um valor superior ao recorde registado de 2.699 partos, em 2025, na maior e mais moderna maternidade do país, a do Hospital de Santa Maria. Exigir que Loures absorva esta procura é desenhar um cenário de ruptura inevitável.
Esta decisão política falha desde logo quando ignora a especificidade dos concelhos em causa. Para uma grávida do centro de Vila Franca de Xira, a viagem em transportes públicos até ao Hospital de Loures pode demorar 1h20, de Alenquer cerca de 1h40 e de Benavente cerca de 2 horas. Mesmo em viatura própria, o trajeto supera os 50 km para muitas famílias, com tempos de condução superiores a 40 minutos e custos elevados em portagens. Estudos sobre planeamento de emergência indicam que o aumento da distância hospitalar está diretamente ligado ao crescimento de partos não planeados no domicílio ou na via pública, situações que elevam exponencialmente o risco de asfixia neonatal ou hemorragias pós-parto.
A desativação do HVFX gera uma pressão em cadeia sobre o INEM e as corporações de bombeiros locais. Numa emergência obstétrica, uma equipa de socorro proveniente de Alenquer ou Benavente pode ficar retida num ciclo de ida e volta ao Hospital de Loures que pode ir até 4 horas. Isto significa que, por cada transporte obstétrico, uma ambulância e a respetiva tripulação ficam inoperacionais para responder a outras emergências críticas nas suas áreas de atuação. Sem um reforço massivo de meios para os bombeiros e para o INEM, esta medida vai-se refletir nos indicadores de saúde das gestantes destes concelhos.
Face ao recorde de natalidade registado em 2025, com mais de 87.700 nascimentos em Portugal, a desativação de uma unidade que provou a sua resiliência mesmo em tempos de crise como o HVFX (que em agosto de 2024 bateu recordes de afluência), é uma decisão temerária. Concentrar milhares de partos numa unidade já saturada, enquanto se deixa subaproveitado um hospital de 2013 com condições de excelência, é admitir a derrota perante o setor privado.
O governo não pode incentivar a natalidade e, simultaneamente, criar obstáculos geográficos que tornam o nascimento um momento de ansiedade para as famílias que não podem pagar o acesso às maternidades privadas que agora florescem na região.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.