Na segunda-feira, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, abriu a 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, não poupando nas palavras. Para quê usar meios-termos quando a realidade está bem à frente dos olhos?
“O Estado de direito está a ser substituído pelo Estado de força. E este ataque não vem das sombras nem é uma surpresa. Está a acontecer à vista de todos e, muitas vezes, liderado por aqueles que detêm o maior poder. Em todo o mundo, os direitos humanos estão a ser deliberada e estrategicamente reprimidos e, por vezes, com orgulho”, disse.
É o fim da vergonha. O que antes era feito mais ou menos à socapa, já não precisa de ser feito assim – o mundo aceita este estado de coisas, assimila os novos valores (ou melhor, a queda dos valores), numa normalização das mais variadas violências e, quem ainda se indigna, tem muita dificuldade em fazer-se entender numa sociedade que oscila entre a anestesia e o rancor.
Não foi sempre assim ao longo da História? E, no entanto, os movimentos progressistas conseguiram furar por entre a apatia e impor uma forma mais compassiva de olhar o mundo. Mas a ação continua demasiado lenta, atendendo à urgência de quem dela mais precisa. As pessoas sofrem “duas vezes: primeiro com a violência, a opressão ou a exclusão, e, depois, novamente com a indiferença do mundo”, repara Guterres.
Na semana passada, o governo do Afeganistão introduziu uma nova lei no país: os homens podem agredir as suas mulheres e os seus filhos desde que não causem “ossos partidos e feridas abertas”. Se causarem, a mulher pode ir ao tribunal tentar provar o abuso. Deverá levar o marido ou um acompanhante masculino e “pode” mostrar os ferimentos ao juiz desde que se mantenha totalmente coberta. Se conseguir esta proeza, o marido pode ser condenado à pena máxima: 15 dias de prisão.
Como explicar a quem vive este dia a dia que é preciso esperar que o mundo deixe de estar indiferente, que estas coisas levam tempo e obedecem a ritmos mediáticos, a atenção das massas (e dos governos) varia bastante conforme a atrocidade que está mais na berra.
O Paquistão tem estado a bombardear o Afeganistão, mas a razão nada tem a ver com a questão das mulheres – os ataques dirigem-se aos rebeldes paquistaneses escondidos naquele país. Já as autoridades afegãs alegam que os ataques aéreos atingiram sobretudo civis e especialmente mulheres e crianças.
“Em todas as frentes, aqueles que já são vulneráveis estão a ser empurrados ainda mais para as margens. E os defensores dos direitos humanos estão entre os primeiros a ser silenciados quando tentam alertar-nos”, continuou António Guterres.
E Gaza? “É uma ótima localização para o mercado imobiliário, perto do mar”, disse Donald Trump há um mês, apresentando os desenhos dos arranha-céus ao longo da costa mediterrânica no Fórum Económico Mundial, em Davos. “Sou um profissional do ramo imobiliário de coração e tudo se resume à localização. Olhem para este local à beira-mar, olhem para esta bela propriedade…”, vendeu o Presidente dos EUA.
Estranha distopia esta em que vivemos! Que mundo reconstruiremos depois deste?