Criado para espicaçar a curiosidade turística, a frase acabou por se converter numa profecia amarga e literal na última semana. Após a região ter sido fustigada pelo fenómeno meteorológico mais violento de que há registos, percebemos que, para quem decide o destino da nação, Leiria é, de facto, uma inexistência.
A ironia atingiu o auge no dia seguinte à tragédia. Recebi uma chamada da minha mãe, alarmada com as imagens que via na televisão. A preocupação dela centrava-se em Lisboa, onde os media relatavam os prejuízos provocados por ventos de 80 km/h. Tive de lhe explicar, entre o espanto e a indignação, que o Centro do País tinha enfrentado rajadas de 170 km/h. Os media, porém, pareciam sofrer de miopia geográfica: o País real termina onde as redações deixam de ter sinal de Wi-Fi.
Nesse momento, “caiu-me a ficha”. Estávamos perante a reedição de um guião antigo e viciado. O interior, ou tudo o que não orbita a Grande Lisboa e Porto, foi, mais uma vez, relegado para uma nota de rodapé.
Enquanto os autarcas desesperavam por auxílio, o Governo perdia-se em vídeos promocionais para simular trabalho, enquanto o Presidente da República, outrora o paladino da exigência com governos PS, parecia ter agendado a exigência e a proximidade para uma data mais conveniente.
O silêncio institucional foi ensurdecedor. Como confidenciou Pedro Santana Lopes, o Governo nem se dignou a contactar os autarcas no terreno. Foi preciso um candidato à Presidência, António José Seguro, chegar ao local de forma discreta e sem o aparato da “máquina” para que o diálogo com quem sofre começasse.
Ainda hoje mais de 200 mil pessoas estão sem energia, sem água, sem banho e refeições quentes, sem sinal de estado nem da empresa privada a quem este vendeu a rede elétrica nacional. Continua a não ver o exército e os seus geradores, nem uma palavra do primeiro-ministro. Primeiro-ministro esse que já agradeceu às seguradoras.
Quando a comitiva finalmente chegou, o cenário beirou o surreal. O primeiro-ministro visitou Leiria e Coimbra blindado por uma caravana de nove carros vindos da capital. Foi a “Capital” a visitar a “região que não existe”. Fica o amargo de uma certeza: se Lisboa tivesse enfrentado ventos de 208 km/h, o País teria parado e o estado de emergência teria sido declarado em minutos.
A tragédia da região centro é o sintoma de uma doença maior. Um país que ignora, negligencia e desvaloriza 80% do seu território é um país condenado à macrocefalia e ao declínio. A poeira mediática vai assentar, os nove carros já regressaram ao conforto de São Bento e Leiria voltará a não existir. Até à próxima tempestade, onde voltaremos a descobrir, com surpresa, que Portugal é muito mais do que os limites da CREL.
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