Nos finais do século XX, a Venezuela debatia-se com enormes tensões e conflitos socioculturais, políticos e económico-financeiros. Embora fosse um país muito rico em recursos naturais, como o petróleo, a grande maioria das pessoas, as crianças, as mulheres e as famílias, viviam na pobreza extrema. A nacionalização da indústria petrolífera, em 1976, tornando-a um monopólio do Estado, mas com bastante autonomia, tinha como objetivo diminuir a pobreza e desenvolver o país. As companhias estrangeiras foram parcialmente ressarcidas pelos prejuízos causados pela nacionalização e, nos 25 anos que se seguiram à nacionalização, a empresa tornou-se a maior da América Latina e a décima mais lucrativa do mundo. No entanto, a pobreza e as péssimas condições de vida das pessoas mantiveram-se.
Em 1998, Hugo Chávez concorreu às eleições presidenciais, propondo-se combater a corrupção e a pobreza, implementar políticas de inclusão social. Chávez ganhou as eleições com mais de 56% dos votos e o seu governo exigiu controlar a empresa estatal que gerira a indústria petrolífera. A agitação política e a violência que se seguiram culminaram com uma greve geral em 2002, contra o governo de Chávez. Dos cerca de 40 mil empregados da empresa, mais de metade foram despedidos ou despediram-se fragilizando enormemente o funcionamento da indústria petrolífera. Passaram a ser aceites somente pessoas da confiança do governo e a empresa formou a sua própria milícia para defender a “revolução socialista”. A tentativa, falhada, de um golpe militar, levou a que todos os militares que não apoiavam Chávez fossem expulsos das forças armadas. Os que claramente lhe eram leais receberam generoso tratamento preferencial e regalias.
A enorme riqueza que tinha sido criada num período de altos preços no mercado internacional do petróleo permitiu reduzir muito significativamente a pobreza, mas não foi bem distribuída pelos cidadãos, nem bem aplicada. A corrupção e a violência aumentaram exponencialmente. A Venezuela não produzia praticamente mais nada a não ser petróleo e dependia das divisas estrangeiras para comprar o que precisava, que era quase tudo. Ontem como hoje, cerca de 70% dos alimentos são importados.
Más companhias. “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”
Os governos de Hugo Chávez (1999 a 2013) e posteriormente de Nicolás Maduro (2013 a 2026) estiveram, desde sempre, abertamente alinhados com Cuba, Rússia, China e Irão, países subjugados por regimes políticos autoritários, ditatoriais e extremamente violentos para com os seus próprios cidadãos, mas que se apresentam ao mundo como defensores dos pobres e dos oprimidos.
Com a queda do preço do petróleo nos mercados internacionais, a falta de divisas estrangeiras, o não funcionamento da sociedade, da economia e da indústria petrolífera – sem manutenção, nem investimento -, a Venezuela mergulha no caos. O embargo e as sanções dos Estados Unidos, que impedem o acesso ao investimento estrangeiro, aos produtos químicos necessários para o tratamento do petróleo bruto e a sua comercialização, mergulham a Venezuela na miséria.
Tudo isto é macabro e denuncia a falta generalizada de maturidade civilizacional ao nível mundial.
“Como reagimos, diz-nos quem somos”
Hugo Chávez e Nicolás Maduro perderam o apoio dos seus concidadãos, mas tudo fizeram para se manterem no poder. Reprimiram violentamente quem se opunha, censuraram a imprensa, corromperam tudo e todos. A reeleição de Máduro em 2018 foi extremamente controversa e provavelmente ilegal, o que – por incrível que pareça – acontece, frequentemente, em muitos países, em todo o mundo.
Entretanto, o crime extremamente violento – assassínios e raptos – tinha atingido níveis insuportáveis e os apagões passaram a ser constantes. Tudo deixa, então, de funcionar. Para além de não haver eletricidade, também não há água. Em Caracas, a capital, os pobres vão buscar água ao rio Guaire, poluído pelos esgotos da cidade. Quem pode, abre ou manda abrir poços junto às casas. Há uma escassez permanente de praticamente todos os alimentos e medicamentos. Até o paracetamol é difícil de encontrar. Os hospitais não funcionam e a situação é desesperada para os doentes crónicos. Não há peças de substituição, não há pneus, nem lâmpadas e o papel higiénico tornou-se um artigo de luxo. A inflação é das mais elevadas do mundo (superior a 100% ao ano), os salários são muito baixos, as famílias recebem cada vez menos ajuda e há muito que já não têm poupanças. As filas na rua, junto às lojas de bens de primeira necessidade, são constantes e intermináveis. Desesperadas, traumatizadas, milhões de famílias, cerca de 8 milhões de venezuelanos (mais de 20% dos cidadãos) fugiram do país, tornando-se imigrantes e refugiados. A ajuda humanitária enviada através do Brasil é impedida de entrar pelo exército e pelas milícias venezuelanas, o que cria tensões perigosas com as forças armadas brasileiras. Há presos políticos e opositores a morrer nas prisões venezuelanas.
Distinguir entre o bem e mal, o certo e o errado. A ética e a falta dela.
Em janeiro de 2026, sem qualquer mandato internacional, as forças armadas dos Estados Unidos, comandadas pelo presidente Trump, bombardearam bases e instalações militares na Venezuela. Depois assaltaram a residência presidencial, mataram todos os militares e seguranças que lá se encontravam, raptaram o Presidente venezuelano e a sua esposa e levaram-nos para uma prisão, nos Estados Unidos. A acusação é de narcoterrorismo!
No século XXI não faltam conhecimentos – nem científicos, nem empíricos -, assim como não faltam os meios materiais e financeiros necessários à resolução dos problemas que atormentam os cidadãos, geração após geração.
Em todo o mundo, as ditaduras florescem e fortificam-se. Os candidatos a ditadores multiplicam-se por todo o lado, apresentando-se como a alternativa aos partidos políticos tradicionais, fracos e desacreditados, corrompidos e obsoletos. Países como Portugal, França, Reino Unido e Estados Unidos, e praticamente todos os outros, vivem há décadas com enormes tensões e conflitos sociais que convivem com milhões de crianças e famílias em desespero face à pobreza crónica e à exclusão. Embora os países citados sejam extremamente ricos, os problemas mais elementares não são resolvidos. As pessoas estão doentes, não ganham o suficiente para se alimentarem decentemente, não têm habitação condigna e o ensino é de péssima qualidade: não ensinam as crianças a conviveram pacificamente consigo mesmas e com os outros, não preparam os jovens para resolverem os problemas que vão enfrentar.
Os cidadãos continuam a ser impedidos de participarem nas decisões que outros tomam sobre a sua vida.
Uma oportunidade de ouro para o empreendedorismo socialmente sustentável
A ONU, renovada e democratizada, a União Europeia, democratizada e mais autoconfiante, os Estados Unidos, quando se pacificarem e unirem, podem, juntos, criar os instrumentos e procedimentos legais necessários para atenuar a generalizada falta de liberdade e de justiça, conter a extrema violência e a exploração que ainda hoje atormentam e martirizam a quase totalidade das crianças, das mulheres e das famílias no mundo.
O livre debate de ideias, os princípios universais da ética e uma justiça, justa e forte, têm de ser suficientes para reduzir e fazer desaparecer os ditadores, os incompetentes e os doentes associais.
A Economia Social
Equipas multinacionais de profissionais competentes ajudam os países a organizarem-se e a gerirem – em liberdade e sem coação – os seus recursos de acordo com os interesses de todos os cidadãos, dando particular atenção às crianças, às mulheres e às famílias. As mesmas equipas ajudam a resolver conflitos sociais, propõem e implementam políticas de Desenvolvimento Socialmente Sustentável que obtiveram o consentimento de todos os cidadãos.
Um bom início da nova era seria levar ao tribunal internacional, renovado, o Presidente Trump e os seus generais, pelo que fizeram na Venezuela e pelo que declaram tencionar fazer.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.