Desde Gil Vicente que sabemos que é muitas vezes na boca do “bobo da corte” que as verdades são colocadas. Com uma liberdade acima do comum dos mortais, entre piadolas e propostas risíveis, Manuel João Vieira vestiu, no debate a onze de dia 6, a pele de quem vai a fundo no que é fundamental, ao dizer que a proposta do “vinho canalizado” era uma metáfora do “direito à felicidade”.
Não sou eleitor do candidato que propõe a fundação da cidade de Vieirópolis, apesar de até ter cantado com ele numa instalação artística no Museu Nacional de Arte Antiga, recriando os célebres Painéis de S. Vicente, mas não posso deixar de me congratular com a chegada de uma certa ironia ao debate onde, no meio de tanta proposta que pode parecer ridícula, podemos encontrar sentidos que, verdadeiramente, são eles que deveriam estar no centro do debate.
Peça fundante da ideia de Estado Moderno, a Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) afirma de forma clara, como funções do referido Estado: “todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”.
Numa leitura dos autores clássicos, especialmente de Aristóteles, e da eudaimonia (o bem supremo e fim último da vida humana, alcançado através de uma vida virtuosa e plena, que envolve a atividade da alma conforme a razão e a virtude), o Iluminismo, numa clara reação ao chamado Antigo Regime, uma sociedade de classes e de privilégios, define a própria humanidade como capaz de atingir esse nível de realização a que chamou “felicidade”.
Sintomaticamente, esse texto genesíaco de 1776, seguido pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, francesa, de 1789, afirma a Felicidade no campo das funções e, assim, dos deveres dos Estados, através dos governos instituídos, mas essa presença será de pouca dura. Os textos constitucionais irão centra-se em funções mais objetivas, capazes de serem plasmadas em programas de governo e códigos legais, perdendo-se esse horizonte que, hoje, nos parece de uma quase pieguice, caso algum político nos viesse afirmar que a sua vontade política era “a procura da felicidade”.
Só mesmo a figura do bobo para nos recolocar no essencial.
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