Entrámos em 2026 com uma sensação estranha de desalinhamento. Como se o mundo continuasse a andar, mas sem bússola. Como se falássemos cada vez mais, mas disséssemos cada vez menos. A verdade não desapareceu de forma súbita. Foi-se diluindo, aos poucos, entre slogans, imagens bem compostas e mensagens politicamente eficazes, ainda que vazias.
Hoje, aquilo que vemos raramente corresponde ao que sabemos. E aquilo que sabemos já não resulta, necessariamente, de reflexão ou de análise crítica. Resulta da repetição, da exposição constante, da normalização de discursos simplistas. Frases feitas, muitas vezes proferidas por responsáveis políticos com uma ligeireza inquietante, como se governar fosse sobretudo um exercício de comunicação e não de responsabilidade.
Assistimos, com uma normalidade preocupante, à ascensão de mensagens pobres para problemas complexos. Discursos que ganham espaço não pelo seu conteúdo, mas pela sua capacidade de circular. A política transformou-se num palco onde a forma vale mais do que o fundo e onde a eficácia mediática suplanta a coerência ética.
Talvez por isso se recorra tantas vezes a metáforas fáceis, como se governar fosse um jogo individual de estrelas. Mas uma sociedade não se constrói à imagem de um jogador solitário, por muito talento que tenha. Não precisamos de um salvador, precisamos de uma equipa. Uma equipa que saiba jogar em conjunto, que faça fintas à crise da habitação, que saiba contornar o desemprego, que defenda os direitos humanos com a mesma determinação com que se defende uma baliza. Uma equipa onde cada um conhece o seu lugar, assume responsabilidades e trabalha para um objectivo comum. O futuro não se ganha com individualismos, ganha-se com jogo colectivo.
Neste processo, os direitos humanos parecem ter sido empurrados para um plano secundário. Já não são o centro da discussão, são um rodapé incómodo. Fala-se de fronteiras com mais emoção do que de pessoas. Fala-se de números com mais empatia do que de vidas. Normaliza-se a exclusão, a indiferença e a desigualdade, desde que a narrativa esteja bem embrulhada.
Vivemos num tempo em que a estética passou a ser mais relevante do que a ética. Importa parecer bem, comunicar bem, alinhar na tendência certa. Importa menos ser justo, coerente ou responsável. Esta inversão de valores não é abstracta. Vê-se nas decisões políticas, na forma como se legisla, no que se escolhe proteger e, sobretudo, no que se aceita sacrificar.
Talvez por isso surjam sinais de resistência nos lugares menos óbvios. O regresso do vinil, dos jogos de tabuleiro, dos objectos analógicos, não é apenas nostalgia. É uma reacção silenciosa a um mundo demasiado rápido, demasiado ruidoso e pouco profundo. Uma tentativa de recuperar tempo, presença e verdade num quotidiano dominado por estímulos constantes e reflexão escassa.
Enquanto advogada, observo esta fragmentação com preocupação acrescida. O Direito vive da verdade dos factos, da prova, do contraditório e do tempo. Não se compadece com julgamentos instantâneos nem com decisões tomadas ao sabor da indignação do dia. Quando a verdade se relativiza, o sistema jurídico fragiliza-se. E quando a justiça perde densidade, a democracia perde credibilidade.
Talvez o maior desafio de 2026 não seja tecnológico nem económico. Seja humano. Reaprender a pensar, a duvidar, a questionar aquilo que nos é apresentado como evidente. Ter coragem para sair do conforto das certezas rápidas e enfrentar a complexidade do mundo real.
Tudo isto precisa de ser relançado e repensado. A política, o Direito, a forma como comunicamos e, sobretudo, a forma como escolhemos o que é essencial. Porque sem ética, a estética é apenas ruído bem iluminado. E sem verdade, nenhuma sociedade resiste por muito tempo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.