Fala-se em Mark Twain e imediatamente nos lembramos das aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, no sul dos Estados Unidos da América. Mas foi o seu menos conhecido livro The Gilded Age: A Tale of Today que deu o nome ao período histórico entre 1870 e finais de 1890. Um período da História dos EUA marcado pela expansão económica e o excesso materialista. O desenvolvimento tecnológico, com a expansão do caminho de ferro, marcou a época, financiado via mercado de capitais de Wall Street. A economia era dominada por monopólios, que controlavam todas as fases de produção de um determinado bem. A mecanização promoveu a eficiência. Os comboios criaram a gestão moderna, que se expandiu dos caminhos de ferro para os setores financeiro, industrial e comercial. O comboio mudou a América, homogeneizando culturalmente um país de dimensão continental.
O lado negro do desenvolvimento desenfreado foi a disparidade económica, onde 1% dos mais ricos detinham 51% da riqueza. Isto, enquanto o big business condicionava as decisões políticas, financiando políticos de forma a garantir que os negócios em expansão não eram objeto de regulação. Para a História, os presidentes americanos da Gilded Age são denominados forgotten presidents (os presidentes esquecidos), dada a sua prestação medíocre na defesa da causa pública.
A industrialização exigia mão de obra, fomentando a imigração europeia e chinesa. A imigração tornou-se um tema político e a imigração chinesa chegou a ser proibida.
A Golden Age terminou fruto de duas crises financeiras, conhecidas como Panic 1873 e Panic 1893. Mais de 100 empresas ferroviárias e 500 bancos faliram e 15 000 negócios sucumbiram. Um número gigantesco para a economia da época. O índice de desemprego escalou, atingido 35% no estado de Nova Iorque (o mais dinâmico). Multiplicaram-se as sopas dos pobres.
A bolha dos comboios explodiu e deixou rasto.
Lemos sobre a Gilded Age e parece o nosso presente. O desenvolvimento tecnológico, os monopólios, a promiscuidade entre a política e as grandes empresas tecnológicas, a desregulação, a desigualdade social, a imigração…
Discute-se se, ou melhor, quando, irá explodir a bolha das big tech. As próprias já se prepararam. A dívida tomada para construir a infraestrutura desta revolução está a ser desviada dos balanços destas empresas para SPV (special purpose vehicles), ou seja, sociedades que emitem dívida, que financia a construção dos data centers. Como garante da dívida já não estão os balanços das big tech e os seus muito rentáveis negócios, mas os data centers cuja construção afirmam ser indispensável para atingir a Inteligência Artificial Genérica. O jornal Financial Times dava conta, num artigo recente, de que o risco de a bolha tecnológica explodir “estava agora em Wall Street”.
Mas o que significa “estar” em Wall Street? Significa que o risco está com os investidores institucionais e entre estes os mais relevantes são os fundos de pensões e seguradoras. Pressionados por garantir rentabilidades que lhes permitam no futuro fazer face aos compromissos de uma população envelhecida, são atraídos pelas rentabilidades mais elevadas da dívida das big tech. Caso a bolha venha de facto a explodir, não serão Mark Zuckerberg ou Larry Ellison (respetivamente, os donos da Meta e da Oracle) a sentir o estoiro, mas o cidadão comum, que mensalmente paga prémios de seguro e desconta para o fundo de pensões.
A crise financeira de 1890 permitiu reequilibrar poderes, com o Estado a assumir o seu papel de regulador da economia. À Gilded Age sucedeu a Progressive Era, marcada por um esforço reformista. Será também necessário a bolha das big tech explodir, com o seu expectável custo social, para que o Estado retome o seu papel na defesa do bem público?
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