Na ditadura salazarista, durante e após a revolta militar de 25 de Abril de 1974, as pessoas não estavam nem zangadas, nem revoltadas. Simplesmente incrivelmente pobres, analfabetas e tristes. De repente, sentiram-se contentes, muito contentes. Não se vingaram, nem fizeram “justiça”, mas foram vítimas do seu entusiasmo, da sua inexperiência, da sua ignorância e vontade de construir uma sociedade mais justa e alegre. De facto, ficou tudo na mesma, mas as más pessoas corromperam muitas mais.
O péssimo estado de saúde das pessoas e os péssimos serviços de saúde tornaram-se uma fonte inesgotável de enriquecimento para muitos profissionais e para os industriais da saúde.
A péssima justiça tornou-se uma fonte inesgotável de riqueza para advogados e juízes.
O péssimo ensino tornou-se uma fonte inesgotável de riqueza para os grandes grupos financeiros, industriais e comerciais.
As péssimas políticas e a péssima gestão do País – da responsabilidade formal dos governantes, dos deputados e do aparelho administrativo do estado – são uma fonte de sofrimento crónico e de empobrecimento, particularmente para as crianças, as mulheres e os imigrantes. Os homens vivem atormentados pela sua impotência em agirem corretamente.
Todas as casas poderiam estar bem isoladas, terem espaços amplos e ensolarados, abertos à luz, aquecidos durante o inverno e a produzirem a sua própria energia. Mas não é assim! As pessoas estão doentes.
Provavelmente, a tristeza e o desalento de 80 ou 90% das pessoas contribuem hoje para a alegria e o prazer despudorado de 20 ou 10% dos cidadãos.
As más condições de vida das pessoas, como os maus governos, arruínam qualquer país.
É preciso que as pessoas façam as pazes, umas com as outras, voltem a confiar, procurem a verdade, para não serem enganadas, pratiquem a bondade e a justiça.
As pessoas, os portugueses precisam também de museus, de bibliotecas e de escolas de arte de qualidade europeia, precisam de urbanismo humanizado.
Particularmente num país pobre, em todos os sentidos, pais emocionalmente ausentes e fisicamente ausentes são uma profunda tragédia para as crianças e para a sociedade.
As crianças precisam dos seus pais e, nas cidades, de grandes parques, com quintas ecológicas, onde possam correr e brincar em segurança, protegidas da poluição. As crianças precisam também que os pais as possam ir buscar às instituições, onde foram forçados a colocá-las, desde os 3 meses de idade, 6 horas ou mais por dia, quase todos os dias, quase todos os meses do ano.
Transformar os seres humanos em funcionários e em mão-de-obra é, provavelmente, antissocial e um crime contra a humanidade.
Só há desenvolvimento se for socialmente sustentável: justo e bom para todos. Acresce que o prazer partilhado rejuvenesce e dá saúde.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.