Num jantar no Porto, com um casal amigo, industriais, há mais de vinte anos, ouvi pela primeira vez a expressão “progressão vaginal”. Eles indignados com a falta de decência generalizada em muitos setores, tanto público, como privado, nós enojados com o nível dos quadros superiores e do poder institucional.
Será que ainda há muitas pessoas que pensam que vão ser as instituições, desde sempre dominadas por homens pouco decentes e malformados, que vão, espontaneamente, questionar e reformular os comportamentos odiosos contra a maioria da humanidade: as jovens e as mulheres? São eles, os homens, que são apalpados ou violados, insultados, abusados e espancados na escola, em casa e no emprego? São eles, ou os seus amigos que são assediados, ignorados e assassinados, porque são mulheres? São eles vítimas, ou predadores?
Será que ainda não houve tempo, nem oportunidade, para aprenderem a respeitar e a proteger as pessoas mais queridas: as pessoas que são mães ou filhas, as cidadãs, as namoradas e as esposas?
O Movimento das Cidadãs e o Movimento dos Cidadãos
As mulheres têm de se organizar e assumir a responsabilidade de serem elas a definirem quem querem ser na sociedade. Elas são mais numerosas e mais importantes do que os homens. O homem não é o inimigo, é um parceiro, um companheiro, ele também um ser humano, geralmente malformado.
O que se passa com o Ensino onde os profissionais nem sequer conseguem ensinar a crianças entre os 3 e os 10 anos a conviverem pacificamente uns com os outros?
O que se passa com a Justiça que não consegue ser um fator de dissuasão e reduzir a reincidência?
O que se passa com os meios de comunicação social que não conseguem incitar a uma reflexão ativa, nem a pacificar comportamentos associais?
Na sociedade civil, nas empresas e nas repartições públicas, nas cidades e nas aldeias é preciso que todos clarifiquem que a agressão -tenha ela a forma que tiver- não é aceitável, nem permitida, particularmente contra os mais fracos -fisicamente- tais como as crianças e as mulheres. A agressão é uma vergonha para todos nós: traumatiza-nos a todos, destrói a nossa dignidade e o autorrespeito.
Todos somos culpados
As religiões, como todas as ideologias políticas desrespeitam e perseguem as mulheres. Na prática, quem o faz, desrespeita-se a si mesmo, agride-se a si mesmo, à sua mãe, como à sua irmã, à sua namorada como à sua companheira, a mãe dos filhos que tiveram em comum. Como é possível que muitas pessoas estejam tão traumatizadas e confusas que ataquem os mais indefesos, e os que lhe são mais queridos, de quem dependem para sobreviver?
Comportamentos aprendem-se na família e na escola, pelo que é inevitável ensinar as crianças a respeitar, a ajudar, a proteger, a criar amizades e camaradas em quem confiar.
Não há inimigos!
As crianças passam mais horas nas creches e nas escolas do que em casa com os seus pais: por que razão são os professores, as escolas, os diretores e o ministério da Educação, as escolas particulares, incapazes de cumprir as suas obrigações mais básicas e ajudar as crianças, entre os 3 e os 10 anos, a serem saudáveis e felizes? Por que razão não conseguem eles, os profissionais, transmitir, e dar o exemplo, a crianças, sobre o que é justo e o que é injusto, o que é o bem e o que é mal, o que é verdade e o que é mentira?
É urgente revigorar a saúde mental de uma sociedade doente. É urgente informar e debater, dar o exemplo, ajudar -com firmeza- os que não se conseguem controlar. As vítimas têm de ser rapidamente protegidas -ao primeiro incidente- e receberem todo o apoio de que necessitem. A qualidade desta ajuda é fundamental para que as pessoas -adultos ou crianças- recuperem da dor e das humilhações de que foram vítimas.
Não são as crianças e os jovens que estão doentes!
Acabar com a violência contra as jovens, contra as mulheres, é perfeitamente possível, a curto prazo. Basta mobilizar toda a sociedade para prevenir a agressão, para que esta conduza o seu comportamento pela moral e pela ética, pelo que é justo. Agredir, ofender e desrespeitar alguém nada tem de justo ou honroso.
Muitas pessoas, sentem-se e estão terrivelmente traumatizadas, de tal forma que se tornaram péssimas pessoas ou pessoas que precisam de reaprender a controlar algumas das suas emoções e frustrações.
Nada disto é muito complicado ou difícil de pôr em prática, quando uma sociedade quer evoluir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.