Um exemplo clássico de segregação institucional entre classes sociais
No hospital Pulido Valente, as placas de identificação das Unidade de Saúde Familiar (USF) são velhas e desbotadas, quase ilegíveis. Existem duas USFs, coladas uma à outra: um exemplo clássico de segregação institucional entre classes sociais no Lumiar, que já vem de longe: para o povo está destinada a USF D. Amélia de Portugal, para a classe média abastada do bairro da Quintas das Conchas é a USF Conchas.
Em ambas as unidades o espaço da receção é miserabilista: cores acinzentadas, mobiliário velho e usado, papeis pendurados nas paredes, informação institucional, por sinal, nada apelativa. Não há qualquer sinal de brio, de interesse em ser agradável e querer receber bem quem sofre e procura ajuda, que são, não por acaso, os mesmos que suportam todos os encargos.
Olhando para o banco do Estado, a Caixa Geral de Depósitos, o contraste é ofensivo
Passados 5 ou 10 minutos de espera o cidadão é chamado à receção e informa que se quer inscrever na USF Conchas. Na receção reina a ineficiência e o improviso, o que torna a comunicação quase impossível: as três rececionistas estão sentadas muito perto umas das outras, as conversas cruzam-se, não existe privacidade. Uma placa de plástico enorme e grossa está colocada entre as rececionistas e os utilizadores do SNS. A instalação de som lança o número das senhas e interrompe quem fala.
Não, não aceitamos inscrições!
O cidadão insiste. A rececionista informa que o cidadão se deve considerar feliz por ter médico de família atribuído noutra USF. Nesta unidade existem muitas pessoas em lista de espera: doentes crónicos, pessoas de idade, pessoas com dificuldades de mobilidade, crianças, etc., etc. Após ter ouvido todos estes considerandos, o cidadão pede, mais uma vez, uma ficha de inscrição, que lhe é prontamente facultada. A dita “Ficha de pedido de mudança de unidade de saúde” é uma impressão de uma colagem enviesada, onde as letras e as siglas são borrões, quase ilegíveis e o texto redigido antes do acordo ortográfico. Provavelmente, há mais de 20 anos!
Senhas a 50 euros?
Na USF D. Amélia de Portugal, a funcionária informa o cidadão que existe uma lista de espera com mais de três anos e que não aceitam inscrições. A cena repete-se, até que o cidadão recebe uma ficha. Para seu espanto, esta só tem a frente. O verso da folha não foi copiado, mas a senhora da receção compromete-se a enviar a ficha por e-mail. Ao mesmo tempo, ao meu lado, uma outra senhora diz, de forma perfeitamente audível, á funcionária da limpeza e a uma outra rececionista, que se encontram do outro lado do balcão, que o marido tinha ido à Loja do Cidadão nas Laranjeiras e que estavam a vender senhas a 50 euros: “A portugueses e a estrangeiros,” acrescenta.
A crueldade e o desrespeito. As pessoas sentem-se humilhadas
Existe também uma nova USF, a USF Alta de Lisboa, sobre a qual se pode ler no Google inúmeras (mais de cem) e aterradoras queixas dos cidadãos: longas filas, horas à espera, desde madrugada, ao frio e à chuva, em pé ou sentados na calçada, maltratados e mandados embora, sem cuidados de saúde. Embora algumas das queixas já tenham anos, nenhuma foi validada. A USF não reage.
O estado, as instituições, os responsáveis e os seus servidores, não procedem bem, nem com justiça. Toda a sociedade é corrompida e entra em sofrimento, provavelmente em colapso.
Uma possível alternativa: a sociedade civil e a economia social
Após mais de 40 anos de tentativas, os governantes, eleitos pelos cidadãos, e os funcionários do Estado continuam a ser absolutamente incapazes de organizar e prestar serviços de saúde com um mínimo de qualidade e minimamente eficientes. A falta de formação profissional – mesmo a mais elementar- é gritante, assim como o desleixo e o desinteresse. Estes serviços de saúde causam enormes prejuízos – psíquicos (os mais graves), físicos, sociais e económico-financeiros- às pessoas individuais e às famílias, e são uma vergonha quando comparados com os mesmos serviços na Europa central ou no setor privado. Esta situação -que não é nova, nem desconhecida-, idêntica à que se encontra em todo o País, requer a intervenção urgente por parte da sociedade civil: os cidadãos têm o direito e o dever de intervir para repor o bem e a justiça, proteger os seus investimentos, a sua saúde e a das suas famílias. Uma possível alternativa é a criação de centros de saúde e hospitais por mutuais, cooperativas e fundações: organizações democráticas, sem fins lucrativos, no âmbito da Economia Social.
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