No dia 1 de outubro de 2025, celebrei 9 anos de atividade em clínica privada. Este marco tem para mim um significado muito especial: recordo-me bem do dia em que abri as portas pela primeira vez, com a convicção de que havia espaço para uma clínica dentária diferente, marcada pela exigência técnica, pela proximidade com os pacientes e por uma identidade própria. Mais do que um projeto profissional, foi a concretização de um sonho pessoal. Olhando para trás, e para a evolução do setor em Portugal, percebo que a minha história se cruza com a história recente das clínicas dentárias no País.
O setor das clínicas dentárias em Portugal
Quando iniciei a minha carreira, o setor estava já em transformação. A medicina dentária tinha ganho protagonismo, mas continuava a ser vivida de forma desigual. De acordo com os dados mais recentes da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), até dezembro de 2023 existiam cerca de 12 988 médicos dentistas inscritos, o que corresponde a 1 dentista para cada 796 habitantes. Este número é muito superior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que situa o rácio entre 1 para 1 500 a 1 para 2 000 habitantes. Estes dados são os mais recentes disponíveis, refletindo apenas a realidade até 2023.
Outro aspeto relevante é a renovação geracional da profissão. Nos últimos anos, tem-se assistido a uma entrada significativa de novos profissionais, em que a maioria pertence ao sexo feminino. Esta transformação não se limita à composição estatística: reflete também uma nova dinâmica na forma de exercer a medicina dentária, introduzindo diferentes perspetivas e contribuindo para moldar o futuro da profissão em Portugal.
Quanto às clínicas, Portugal conta com milhares de unidades registadas, desde pequenos consultórios até estruturas de maior dimensão. Os relatórios económicos indicam que o setor movimenta mais de 1 300 milhões de euros por ano, o que demonstra a sua relevância crescente. No entanto, para além dos números, o que importa sublinhar é a diversidade de modelos e a busca constante por diferenciação.
A jornada de criar uma clínica própria
Abrir uma clínica dentária em Portugal é um processo longo, exigente e moroso. Não se trata apenas de encontrar um espaço físico e equipá-lo. Envolve planeamento, investimento, resiliência e a capacidade de acreditar num projeto quando ainda não existe nada de palpável.
Recordo-me das primeiras reuniões em que desenhei a visão que queria concretizar: desejava um espaço onde cada detalhe refletisse rigor clínico, mas também elegância e proximidade. A escolha da identidade, o ambiente arquitetónico, a forma de acolher os pacientes — tudo foi pensado para que cada pessoa sentisse que estava a entrar num espaço de confiança e cuidado.
Houve momentos desafiantes. As burocracias legais e os prazos prolongados foram obstáculos constantes. A incerteza do arranque, a necessidade de criar uma equipa alinhada com os valores que queria transmitir e a pressão de me afirmar num setor competitivo foram lições duras, mas fundamentais. No entanto, cada passo consolidou a convicção de que estava no caminho certo.
Identidade clínica e equipa
Se há algo que aprendi ao longo destes 9 anos é que uma clínica não se constrói apenas com tecnologia ou técnicas avançadas. Constrói-se sobretudo com pessoas. A equipa tornou-se o coração do projeto, partilhando valores de ética, formação contínua e excelência no atendimento. Esta cultura foi, e continua a ser, a chave para a sustentabilidade do projeto.
A construção da identidade foi pensada para transmitir confiança e sofisticação. A comunicação, muitas vezes vista apenas como promoção, foi para nós um meio de contar uma história: a história de uma clínica que acredita que saúde oral é sinónimo de qualidade de vida.
Perspetivas para o futuro
Olhando para o setor em Portugal, vejo tendências claras: maior consolidação, digitalização e uma população cada vez mais exigente. As clínicas que prosperarem serão aquelas que conseguirem conjugar visão empresarial e compromisso clínico. O objetivo é continuar a inovar sem nunca perder de vista a essência: colocar o paciente no centro de todas as decisões.
Conclusão
Celebrar 9 anos de prática em clínica privada é, para mim, celebrar a concretização de um sonho que se tornou realidade e que hoje faz parte da vida de muitos pacientes. É também uma oportunidade de refletir sobre a evolução das clínicas dentárias em Portugal, um setor em constante mudança, mas onde os valores de rigor, ética e proximidade devem permanecer inalteráveis. O futuro da medicina dentária no nosso país será promissor se soubermos unir ciência, visão estratégica e humanidade no cuidado ao paciente.
Fontes
- Ordem dos Médicos Dentistas – Números da Ordem 2024 (dados até dezembro de 2023)
- HealthNews – “Crise na medicina dentária: Portugal perde profissionais a ritmo recorde” (2024)
- LabPro – “Top 600 clínicas dentárias em 2022” (2024)
- DentalPro – Relatório de mercado (2024)
- GEE – Estatísticas setoriais CAE 862 (2023)
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