Muitas vezes, a sensação de auto-respeito e de realização pessoal está no trabalho que realizamos. No trabalho está também a nossa sobrevivência. O que nos resta quando nos tiram o trabalho, quando nos impedem de trabalhar? Emocionalmente, ser impedido de trabalhar, é uma experiência terrivelmente traumática, uma tragédia existencial, com que muitas pessoas são confrontadas – particularmente mulheres- e com a qual não podemos conviver.
Estes são os testemunhos de duas mulheres que tiraram o mestrado na mesma universidade, em Lisboa:
A atmosfera era pesada. As pessoas quase não falavam umas com as outras, percebia-se que havia segredos, informação que não era transmitida pelas chefias, mas que circulava. Que tipo de contrato tinha cada um, quanto ganhava cada um, porquê, como era feita a avaliação do desempenho? Por que razão ainda não me tinham pago, três meses depois de ter começado? Davam desculpas de tempo e de oportunidade. Na realidade, o chefe estava frequentemente ausente. Não raramente, chegava a meio da tarde e marcava uma reunião com a equipa ao fim da tarde, sem razão aparente, só porque tinha esses hábitos.
O contrato imposto era de estágio, mas incluía salário e subsídios. No entanto, não me pagaram absolutamente nada nos primeiros quatro meses. Era uma prática corrente na empresa, nesta e em muitas outras.
Para mim tudo isto era uma total surpresa: a falta de clareza, a falta de decência e de organização. Sentia-me enganada, explorada e humilhada, mas queria continuar. O mestrado, numa das mais badaladas universidades de Lisboa, não me tinha preparado para isto.
Mesmo que o trabalho estivesse feito, era expectável que as pessoas ficassem até mais tarde, sem limite. Era visto como um compromisso, como uma identificação com a empresa, uma prova de lealdade: fazer sem questionar, sem abrir a boca. Sentia-me envergonhada e intimidada embora os meus clientes estivessem satisfeitos. Só que ficava apavorada quando me era pedido que passasse faturas exorbitantes, de trabalho não realizado ou de relatórios que estavam longe de corresponderem à verdade. Havia quem se queixasse ao IEFP, e mesmo antes de eu ter entrado já tinha havido problemas e pelo que se dizia, multas e mudança de nome da empresa. Uma vez, os inspetores apresentaram-se na receção e enquanto esperavam, saíram as chefias pela porta de serviço. O trabalho, em si, era estimulante, interessante e pedia um constante investimento. Os clientes agradeciam e eram gentis, o que era fantástico.
O chefe não me prolongou o contrato e disse-me que tinha suspeitas de que uma das pessoas que tinha feito queixa ao ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho) tinha sido eu, o que não era o caso. Não me foi possível reverter a decisão tomada, sem que tivesse sido ouvida. Durante meses e meses, candidatei-me a muitas empresas, mas tudo em vão. O desespero, a tristeza e a sensação de injustiça eram quase insuportáveis.
Entretanto, um ex-colega tinha-me dito que o meu ex-chefe, quando contactado por empresas às quais eu tinha concorrido, dizia de mim o pior que podia. Na realidade, e para minha surpresa, fui chamada algumas vezes e apercebi-me que tinham falado com o meu ex-chefe. Numa das entrevistas a pessoa disse-me mesmo que tinha recebido informações muito negativas de fulano, mas que ia arriscar.
Carolina, 35 anos (nome fictício)
O ódio e a perseguição nas empresas
Entrei para a empresa, tinha um bom desempenho, mas nunca me permitiram o contacto direto com clientes. O chefe não tinha confiança em mim e dizia-me para não ir às reuniões de equipa. Passados seis meses fui despedida sem qualquer justificação. Estava numa lista negra, o que não é uma prática desconhecida em alguns setores e tem um efeito devastador nas vítimas. Nada tinha feito de mal, sou competente, mas não necessariamente humilde e submissa, ou bajuladora. Sou difamada, perseguida, impedida de exercer a minha profissão, de ganhar o meu sustento, de viver a minha vida, de participar na sociedade, de constituir uma família. Não sei como me defender. Como eu, muitas mais pessoas, que uns e outros conhecem. Condenados sem crime, nem apelo, sem vida para viver.
As empresas contornam a lei e têm comportamentos associais que destroem as pessoas -particularmente as mulheres- e arruínam a sociedade.
“O trauma é o fator fundacional da nossa depressão crónica.” (Gabor Maté)
Quando engravidei pela primeira vez, fiz uso da minha licença de maternidade para me tratar, para cuidar do meu bebé, para lhe dar toda a atenção e amor que tinha. Ou pelo menos, essa era a minha intenção. Quatro meses após o parto o chefe, um ex-colega de faculdade, começou a mandar-me mails de trabalho. Que era precisa, que já estava ausente há muito tempo. Mandava-me trabalho, pressionava-me para começar a trabalhar. Acabei por decidir encurtar a licença de maternidade e pedir aos meus pais para ficarem com a neta pois não tinha creche. Abandonar a minha filha com quatro meses, não poder estar com ela e cuidar dela, foi, emocionalmente, muito doloroso.
Tive a sensação de ter sido agredida e de ter faltado à minha filha quando ela despertava para a vida.
Passados dois anos, fiquei outra vez grávida. Após o parto, não houve nem um gesto, nem uma gentileza da parte do meu chefe ou da empresa. Prolonguei a licença de maternidade por mais 3 meses, mesmo perdendo 50% do meu salário. Prolonguei mais 3 meses, mesmo perdendo 75% do meu rendimento, para estar com as minhas filhas, para poder dar-lhes o máximo de atenção, de carinho e de amor, para não perder momentos únicos. Desta vez não cedi às pressões e pedi compreensão para o facto de ter duas bebés que precisavam de mim.
Quando terminaram os 12 meses apresentei-me ao trabalho, numa segunda-feira. Nesse mesmo dia, o chefe chamou-me para uma reunião e informou-me que a empresa tinha feito uma reestruturação, no início do ano, e que já não havia lugar para mim. Parecia que me tinham dado um soco e que estava em estado de choque. Mal ouvia o que o chefe continuava a dizer. O pânico parecia que ia tomar conta de mim.
Querem-se livrar de mim por ter filhos. Sou um problema para eles, porque sou mãe.
A empresa quer rescindir o contrato e fazer um acordo comigo. Fizeram-me uma proposta e foi o silêncio. Passado alguns minutos, talvez com lágrimas nos olhos, disse que tinha de falar com o meu marido, que tinha de pensar. Nunca alguém me tinha dito algo sobre uma reorganização. Sinto que estou a ser atacada e castigada. Como vamos sobreviver com duas bebés, sem seguro de saúde, sem subsídio de alimentação, sem rendimento fixo do meu marido? Como vamos pagar a creche e a hipoteca todos os meses? A minha angústia e desespero parecem não ter limites. Não consigo dormir, nem descansar. Choro quando me posso esconder. Por vezes sinto-me entrar em pânico. O meu marido convenceu-me a consultar um psicólogo e um advogado. Sem subsídio de desemprego, como vamos sobreviver?
Ana, 36 anos (nome fictício)
Os empregadores e os governos são os responsáveis pela taxa de natalidade do país
Como é possível tanta maldade, tanta falta de empatia, tanta indiferença com o sofrimento que se causa ao outro e à sua família? O impacto destas maldades, destas patifarias, na sociedade é tremendo. As famílias estão em permanentemente stresse, inseguras, angustiadas. O risco da pobreza faz-nos sufocar, é traumatizante. Por vezes as pessoas confinam-se em casa, no quarto, com sentimentos de culpa e pensamentos suicidas. É necessário repetir: “Não és a culpada, és a vítima.” E as crianças? Quem cuida delas quando os pais são arrasados?
É urgente que as associações empresariais, o Estado e os governos eduquem e humanizem o setor empresarial, contribuindo assim para transformar uma sociedade doente numa sociedade saudável e dinâmica, empresas medíocres e moribundas, em empresas pujantes. É preciso investigar quantas mães são despedidas nos dois primeiros anos após o parto. “Cinco grávidas foram despedidas por dia em 2024.”
Não é preciso proteger as jovens e as mulheres, basta que as não persigam ou agridam. “Quem o faz, não está bem da cabeça.”
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.