Quando li o título de uma notícia que 540 javalis e veados tinham sido abatidos ocorreu-me terem desencadeado uma daquelas iniciativas para combater uma “praga” que estes animais estariam a constituir num determinado local ou, tecnicamente falando, e como dizem os defensores da atividade cinegética, uma “correção no excedente populacional para garantir o equilíbrio das espécies e dos ecossistemas”.
Também me lembrei que estes animais pudessem constituir uma grave ameaça de saúde pública por estarem com uma doença como peste suína africana ou tuberculose e que as autoridades teriam tomado uma difícil decisão, o seu abate profilático, para evitar o contágio descontrolado a outros animais ou pessoas.
Mas não. O que se passou naquela quinta da Azambuja foi uma atividade de puro entretenimento. Uma montaria, uma herança medieval em que caçadores escondidos esperam o aparecimento dos animais acossados por perseguidores e respetivas matilhas, tantas vezes compostas por cães esfomeados e mal tratados. Tratou-se de um negócio onde aqueles que pagaram bilhete tiveram direito a meter chumbo em tudo o que mexia e a celebrarem a sua pseudo-virilidade. Foram mortos centenas de veados e de javalis, encurralados entre as paredes da quinta, praticamente sem árvores para sequer se protegerem dos matadores, também conhecidos como caçadores. O gozo obtido a partir do massacre de animais que não se conseguem defender ou esconder tem um nome: alarvidade. Portugal só será um país evoluído quando atos de cobardia como estes tiverem a devida censura consagrada por via legal e quem as pratique seja condenado a pena de prisão efetiva.
A organização de uma montaria deveria atender ao cumprimento de normas e de códigos de ética, nomeadamente garantir que o coberto vegetal da zona escolhida seja suficientemente espesso e denso para proporcionar bom abrigo e melhor proteção aos animais e que o monteiro privilegia a qualidade e não a quantidade de reses abatidas. Mas hoje em dia estas condutas não se coadunam com um setor da caça cada vez mais intoxicado em perseguir objetivos mercantilistas que satisfaçam os apetites de quem se alimenta da fragilidade alheia.
O balanço ecológico e o objetivo de preservação das espécies podem estar consagrados no ordenamento cinegético, mas apenas servem uma narrativa para camuflar a verdadeira intenção do setor: perseguir, atirar, matar.
Prova disso é saber que a caça é legalmente assumida como medida de controlo populacional das espécies através da correção dos excedentes das populações que podem provocar desequilíbrio nos ecossistemas, mas que na prática, por total ausência de censos, se continua a caçar sem conhecimento das dinâmicas populacionais, em alguns casos espécies em risco de conservação, como a rola-brava ou o coelho-bravo. O setor sabe que se caçam animais sem se conhecerem as populações. O setor sabe que se praticam modos de caça anacrónicos e indizíveis como “à paulada”, com recurso a matilhas ou por montaria. Mas recusa-se a evoluir, a abandonar práticas medievais que são eticamente incompatíveis com a forma como as pessoas em Portugal entendem que devemos relacionar-nos com os animais.