Não há doença diagnosticada há mais tempo do que a falta de memória. Apesar dos milhões e milhões de mortes que tem semeado, da destruição e do caos que provoca e de muitas outras terríveis consequências, não há maneira de se encontrar uma cura ou sequer um paliativo para a maleita.
O vídeo que a Casa Branca fez circular em que vemos e ouvimos os homens de negócios mais poderosos do mundo a bajular Donald Trump parece só patético, mas se nos lembrarmos do que foi a aliança entre o regime nazi e os capitães da indústria alemã na altura, talvez não nos dê grande vontade de rir.
Uma brevíssima leitura de um manual de História da primeira classe talvez pudesse evitar guerras, genocídios e afins. O mesmo poderia dizer-se do conhecimento básico da forma como sociopatas vendedores de ilusões alcançam o poder. Não, a doença é mais extensa. É até possível que a incessante repetição dos mesmos fenómenos não tenha só que ver com memória, mas com uma pulsão ou um qualquer inevitável instinto humano.
Alguém duvida que daqui a dois meses já ninguém se lembra dos incêndios? Que todas as intenções e os planos serão atirados para o dossier “problemas que o tempo há de resolver”? Sabemos o que se passa no nosso território, o que é o aquecimento global, a trapalhada que é a gestão das crises, a falta de profissionalização das pessoas ligadas ao setor, os diminutos recursos, mas passam os anos e, sejamos simpáticos, vão-se dando umas aspirinas. Para o ano, se não chover em agosto, voltaremos aos conselhos de ministros extraordinários, aos planos com x medidas e à suposta incompetência do ministro da Administração Interna. Já não seria mau não ter um primeiro-ministro a criticar a imprensa por relatar incêndios enquanto ele faz uma patuscada.
Políticos mais conscientes da falta de memória dos povos – infelizmente, demasiados – chegam a brincar connosco. Observar Carlos Moedas a negar tudo o que afirmava solenemente sobre responsabilidade política há três anos é de estarrecer: “Na política temos, de uma vez por todas, de ter uma atitude diferente, por isso continuo a pedir a demissão de Fernando Medina.” Num caso estava em causa o envio de uns emails para a Embaixada da Rússia, no outro a morte de 16 pessoas.
Como, lá está, a memória é um vírus à prova de medicamento, a comunidade fica refém de qualquer demagogo aldrabão – com ou sem redes sociais, sempre conseguiram espalhar o vírus da mentira e do ódio.
Ouço tanta gente debitar a conversa de que os últimos 50 anos foram péssimos que não poucas vezes me sinto a viver numa espécie de universo paralelo. É que a realidade é tão oposta a esta ignorante treta que chega a ser difícil contestar. Ficamos assim, como aqui já esclareci com números e factos de muito fácil acesso, nunca tivemos na nossa longa História cinco décadas tão boas para tantos portugueses. Nunca tanta gente teve acesso a serviços de saúde, educação e apoios sociais. Nunca houve salários tão elevados para tanta gente, nunca houve tanto emprego, tanta habitação digna. Não há um único aspeto em que a vida dos portugueses não tenha melhorado significativamente. No entanto, há mais de um milhão e meio de portugueses que acham que se vivia melhor antes da Revolução de Abril de 1974.
Infelizmente, creio que há mesmo mais do que o tal milhão e meio de portugueses que verberam contra a imigração e que falam dos que para aqui vêm e não partilham “o nosso modo de vida”.
Como é de memória que estamos a falar, não vou gastar caracteres a repetir o quão vital é para Portugal que eles tenham vindo e que continuem a vir. É que sem eles o País colapsaria em praticamente todos os setores, nomeadamente no que permite apoiar os portugueses mais necessitados. Mais, a vinda de tanta gente tem uma explicação simples – e não é a infame aldrabice das “portas escancaradas”: havia empregos. Como explica Hein de Haas no livro Como Funciona Realmente a Migração, as pessoas emigram para os países que têm uma economia que precisa delas.
O vídeo que a Casa Branca fez circular em que vemos e ouvimos os homens de negócios mais poderosos do mundo a bajular Donald Trump parece só patético, mas se nos lembrarmos do que foi a aliança entre o regime nazi e os capitães da indústria alemã na altura, talvez não nos dê grande vontade de rir
Lembro ainda que não há português que não tenha um emigrante na sua família. Um homem ou uma mulher que não tenha saído a salto ou pelas vias legais porque a fome apertava ou não tinha horizontes. Talvez um daqueles milhões que fugiram para França nos anos 60 (como para todos os cantos do mundo ao longo da nossa História) e que era vítima da mais descarada xenofobia. Um daqueles que ouviam que África começava nos Pirenéus e que os portugueses e espanhóis eram primitivos e atrasados e que estavam bem era a viver em bidonvilles.
Mas não se julgue que o problema está circunscrito à memória remota. A forma como anda tudo esquecido de um episódio que desrespeitou a vontade popular, que revolucionou todo o nosso cenário político partidário e que objetivamente foi um golpe de Estado institucional é das coisas mais chocantes do Portugal pós-25 de Abril.
Lembro, claro está, a Operação Influencer. Praticamente dois anos passados e ninguém parece estar lembrado de que um primeiro-ministro se viu forçado a pedir a demissão por suspeitas graves, autarcas estiveram detidos, ministros foram indiciados de crimes particularmente relevantes, bem como advogados e empresários.
Onde está a acusação? O que afinal fez toda esta gente para que se tenha criado no País a sensação de que havia uma autêntica quadrilha no governo liderada por um primeiro-ministro? Vamos mesmo ter uma acusação que justifique ter-se de facto implodido o sistema ou daqui a uns anos vamos ter um qualquer procurador-geral da República a pedir desculpa por qualquer coisinha?
Quando um destes dois cenários se concretizar já terá passado muito tempo, ninguém vai pedir satisfações, ninguém se vai lembrar das consequências. A falta de memória tem muitas consequências funestas para o bom funcionamento de uma democracia, mas nenhuma tão grave como inocentar as pessoas que tão gravemente degradam as instituições.
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