Há uns tempos, numa instituição bancária, durante uma mera atualização de dados, fui questionada sobre as minhas habilitações literárias e, posteriormente, sobre a profissão. Prontamente, respondi “mestrado” e expliquei que estava “entre profissões”, por estar, neste momento, a ajudar no negócio de família. Do outro lado, senti uma pequena hesitação – quase como se a expressão fosse estranha ao atencioso funcionário que me atendia e, simultaneamente, “inválida” para o sistema informático. Ainda assim, perguntei quais eram as opções disponíveis. Com toda a naturalidade, respondeu: “Vou colocá-la como dona de casa.”
Dona de casa. A expressão ficou a ecoar-me por instantes. Era apenas a opção com mais sentido disponível no sistema informático do banco e com nenhum sentido para mim. Não era “só” uma questão de etiqueta burocrática. A minha identidade, o meu percurso, as horas de estudo e trabalho e o esforço pareciam ter sido apagados por aquele “dona de casa”.
Anos a estudar Economia e o banco decide que a minha função principal é “dona de casa”. Ora, até faz sentido! Se o significado etimológico de economia é “administração de uma casa”, então sinto-me a exercer a profissão com o devido rigor académico.
Ainda assim, fiquei a pensar no que teria acontecido se eu fosse homem. Duvido que alguém, perante a mesma explicação, fosse apontado como “dono de casa”. Teria sido “em transição” ou “à procura de novas oportunidades”, qualquer coisa que preservasse a ideia de ação. Para os homens, a ausência de emprego formal raramente os empurra para a esfera doméstica; para nós, mulheres, continua a ser o destino suposto quando o sistema não encontra outra caixa onde nos inserir. E foi isso que me incomodou: não a palavra em si, mas o reflexo automático de um mundo que ainda presume que se uma mulher não está profissionalmente definida, então é invisível. Essa invisibilidade torna-se ainda mais alarmante quando a sociedade ignora todo o valor que geramos com ou sem salário.
Parte do desconforto tem também raízes na forma como a economia é medida – tradicionalmente, pelo crescimento económico e pelo produto interno bruto (PIB). Ao longo das últimas décadas, o PIB tornou-se contestado por não capturar o bem-estar humano e o progresso das sociedades. Concebido na década de 1930 por Simon Kuznets, o PIB pretendia medir o rendimento nacional e acompanhar o desempenho económico dos Estados Unidos, especialmente após a Grande Depressão e as políticas do New Deal. Mas, com o tempo, revelou-se muito limitado: contabiliza apenas o valor monetário de bens e serviços finais, ignora a depreciação do capital natural, não distingue atividades que contribuem ou prejudicam o bem-estar, e deixa de fora todo o trabalho informal, voluntário ou doméstico. Ou seja, o resultado é que aquilo que é essencial à sociedade não entra nas contas. E aquilo que entra raramente é o mais essencial. O que nos leva a concordar com as palavras de Robert Kennedy, proferidas em 1968, de que o PIB “mede tudo exceto o que faz a vida valer a pena”. A Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, marcou o primeiro grande esforço internacional para desenvolver indicadores que corrigissem essas limitações. Surgiram métricas alternativas, capazes de integrar dimensões sociais e ambientais, como o Índice de Bem-Estar Económico Sustentável, o Produto Interno Bruto Verde, o Índice de Desenvolvimento Humano e o Índice de Progresso Genuíno. Mais tarde, em 2007, a iniciativa “Além do PIB”, da Comissão Europeia, incentivou indicadores de bem-estar que incluíssem aspetos ambientais e sociais, adequados para enfrentar os desafios globais do século XXI e melhorar a tomada de decisões.
Apesar destes avanços, o modelo económico vigente continua a funcionar como um sistema fechado e estático: olha apenas para o que é contabilizado, ignorando quase tudo o que acontece nas margens. É nesse espaço não contabilizado que muitas vidas, incluindo a minha, acabam reduzidas a categorias simplistas e redutoras. A denominação “dona de casa” é, exatamente, o reflexo de um modelo económico incapaz de compreender aquilo que não cabe nas suas contas.
Esta experiência mostrou-me que continuamos a medir a vida e o valor apenas pelo que é visível e transacionável. Um sistema verdadeiramente equilibrado reconheceria que a prosperidade depende tanto do que se produz como do que se sustenta e preserva. O meu contributo, e o de tantas mulheres e homens, não seria um resíduo invisível, mas seria reconhecido como parte vital do funcionamento da sociedade. O verdadeiro e grande desafio passa por adotar modelos que saibam olhar para a vida, valorizando aquilo que mantém a sociedade, a economia e o planeta dentro de limites seguros e justos. É nisso que reside o passo mais importante: criar e adotar alternativas de reconhecer o que é essencial, para que ninguém fique reduzido a uma palavra, e para que a vida, com toda a sua complexidade, passe a ser vista e valorizada na sua totalidade.
Comecemos, então, por olhar e valorizar as interações humanas do dia a dia porque é aí que a vida realmente acontece!
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