“O vinho é poesia engarrafada.” É uma frase emoldurada em vários restaurantes por este nosso Portugal adentro. Mas o que significa mesmo um poema sob forma líquida? Diria que depende da perspetiva.
Para o agricultor, os poemas surgem do sangue e suor do seu trabalho. São versos simples, bens construídos com uma métrica constante: a Natureza. Vindima após vindima, o agricultor move-se pelos ritmos da Natureza, cabendo-lhe a tarefa inglória de tentar moldá-la. Seja através da poda, da calda bordalesa, do esladroamento, o agricultor, cepa ante cepa, faça chuva, faça sol, repete este ritmo sem mais, confiando que no próximo ano será melhor.
O produtor de vinho entende a poesia na sua dimensão dramática. Normalmente, num país como o nosso, quem faz vinho fá-lo desde tempos imemoriais, onde o mito encontra a memória. Não é verdadeiramente produtor de vinho quem não discorrer sobre as várias peripécias familiares, umas mais verdadeiras do que outras, que dão corpo e alma ao vinho que nos chega à mesa. Os produtores de vinho, que deambulam entre o amor à terra e as agruras do tempo, são infelizes cada um à sua maneira. E por isso continuam, qual destino heroico, em busca do seu cálice sagrado.
O profissional de vinhos, seja ele enólogo, sommelier ou distribuidor, encarna como propósito da sua existência tornar o vinho um negócio. Sem ele, as quimeras dos nossos heróis não zarpam da costa. Poesia sem floreados, obra de quem tem o peso de um mundo carregado de histórias sobre os seus ombros. Sabem bem da responsabilidade que é dar vida ao que para outros é sonho.
Por fim, temos quem bebe vinho, o mais comum dos mortais. Tal como a poesia, o vinho não tem regras. Pode ser clássico ou pode seguir uma métrica fora dos cânones. Tudo começa nas uvas, brancas, tintas, de altitude, de solo de granito, xisto, calcário, com mais ou menos açúcar, com mais ou menos acidez, e por aí fora. Mas a verdadeira poesia acontece quando as uvas se transformam em vinho. Processo de alquimia pura, com leveduras de nome impronunciável.
Todo o vinho é feito da mesma forma, com uvas e fé em Deus. Uns gostam de intervir mais no processo, enquanto outros são mais crentes. Seja como for, partilham todos o mesmo chão comum, a devoção pelo vinho.
Não é por acaso que o vinho é conhecido como néctar dos deuses; os que o bebem querem sentir-se mais próximos deles. Os poetas e os amantes de vinho têm em comum esta busca do que é transcendente, daquilo que não está acessível aos homens.
Num mundo em que cada vez mais os homens estão ensimesmados, extremamente preocupados com os aspetos mais terrenos da nossa existência, é importante reforçar o papel do vinho como um veículo emancipador e não meramente utilitário. A cultura em geral, e em particular a do vinho, está cada vez mais a sair do léxico dos nossos jovens. As bebidas aromatizadas à base de sumo de uva, os vinhos sem álcool, as kombuchas, os cocktails, são cada vez mais consumidos pelos filhos dos amantes de vinho.
Grande parte destes produtos são exatamente isso, produtos. São mercadorias sem qualquer valor cultural, produzidas numa qualquer fábrica hiper-higienizada e em grande quantidade para satisfazer o gosto cada vez mais infantilizado dos nossos jovens.
Urge olharmos para o vinho na sua dimensão poética. São cada vez menos os restaurantes que exibem orgulhosamente a frase que tantas vezes vimos repetida até se tornar um mantra.
Enquanto agricultor, produtor e sobretudo amante de vinho, sou um privilegiado, pois vivo intensamente esta cultura. No próximo copo de vinho que beberem, convido-vos a saber mais sobre a história do produtor, o tipo de agricultura, como foi feito o vinho, quais as castas… Para mais tarde, quando beberem outro vinho, fazerem as mesmas perguntas e obterem outras respostas, e assim sucessivamente. Tenho a certeza de que irão acabar mais vivos do que antes e com alma de poetas. Deixemos para os desalmados os copos de vinho sem álcool.
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