Começamos o ano a falar dos séculos. No dia 9 de Dezembro, estive na Torre do Tombo para assistir à apresentação de uma obra que demorou décadas a ser feita e que demorará décadas a ser digerida. Talvez não tenham sido décadas — não sejamos pedantes logo à partida —, mas foi, em todo o caso, muito tempo. A sala estava cheia, mas a sala era pequena. Fosse o espaço directamente proporcional à vastidão da obra em causa, não poderia estar. O que seria bom sinal. Porque, em Portugal, quando se fala de genealogia com seriedade, a escala humana mede-se em quarenta ou cinquenta caturras. Talvez menos.
Ainda não disse o nome? Vou dizer. “Genealogias da Madeira e Porto Santo”, o seu autor Jorge Forjaz. Tinha sido apresentada dias antes no Funchal, com idêntica singeleza, quase em surdina. O tipo de discrição que não é falha de comunicação, mas sinal de grandeza. É que tudo o que é verdadeiramente fundamental não sabe promover-se (nem quer, nem precisa). Há coisas que nascem para o barulho do instante e outras para o silêncio das eras. Esta obra pertence claramente à segunda estirpe.
O que Jorge Forjaz publicou é, simplesmente, um assombro. Uma obra de dimensão e ambição inauditas, daquelas que não pedem adjectivos porque os tornam redundantes. As Genealogias da Madeira e Porto Santo não são um livro entre outros: são uma biblioteca condensada: dez volumes, mais de sete mil páginas, milhares e milhares de nomes. As páginas amarelas do sangue madeirense; ou então uma ilha inteira passada a limpo.
O historiador açoriano soma, aliás, uma obra publicada que ultrapassa largamente a de todos os grandes nomes da genealogia portuguesa: D. Pedro (Conde de Barcelos), Cristóvão Alão de Morais, Jacinto Manso de Lima, D. António Caetano de Sousa e Felgueiras Gayo. Luís Amaral — autor da sempre formidável base de dados Geneall, e outro nome que merecia livro próprio — mostrou-o numa montagem projectada durante a sessão de 9 de Dezembro. Os volumes estavam ali, lado a lado. E não havia discussão possível: a obra de Forjaz ganhava. De capote.
Pudera. Forjaz correu mundo a investigar famílias. Um certo mundo, o do antigo Império. Mas correu-o a sério, com os pés e com os ossos. Meteu-se em aviões, passou temporadas em hotéis e apartamentos emprestados, e registou, paciente e obsessivamente, nos seus cadernos, os nascimentos, casamentos e mortes de todos quantos pôde. O mesmo Luís Amaral disse-o, contundente, no prefácio das Genealogias da Madeira e Porto Santo: “Jorge Forjaz é, apenas e só, o mais prolífico genealogista português de todos os tempos.” Ponto final.
Chegado aqui, o leitor — esse ser desconfiado por natureza — poderá pensar: que espécie de homem se lança nestes trabalhos? Que loucura é esta, tão monástica quanto ignorada? Certamente ganhará fortunas. Ora, nada mais falso. Não ganha. Gasta. E não é loucura, mas o seu exacto avesso. É a mais rara das virtudes modernas: a robustez de espírito.
A genealogia começa quase sempre por acaso: uma personagem, um impulso de distinção, uma história de família mal contada. Mas não fica por aí. Aprofunda-se depressa, porque toca onde dói: na identidade. Não é por acaso que este território é frequentado por comunidades emigradas, por famílias espalhadas, por tradições religiosas que levam a sério a memória dos antepassados. Uns procuram saber de onde vêm; outros acreditam que nomear os mortos é uma forma de os salvar — todos querem saber quem são. Em todos os casos, o passatempo responde à necessidade brutal de não ser anónimo no tempo.
E assim, sem nos apercebermos — porque durante um passatempo o tempo, de facto, vai passando — a genealogia serena. E porque nunca acaba, esse sossego dura mais do que qualquer distracção elegante, mais do que qualquer jogo. Para Forjaz foi — e continua a ser — isso: um passatempo. O trabalho, esse, era outro, perfeitamente respeitável e perfeitamente insuficiente: Director do Museu e Conservador da Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, Director Regional dos Assuntos Culturais da Região Autónoma dos Açores, entre outros cargos e funções que foi acumulando ao longo da vida. A genealogia foi o que da margem se tornou centro. Por carolice. Mesmo quando aceitou serviços pagos, rapidamente os descartou. Não queria fazer o que não lhe interessava. E isto não é um detalhe no currículo, mas a chave moral de toda a obra. E do seu autor.
Porque um passatempo não é aquilo que se faz quando sobra tempo, mas aquilo que se faz quando se é livre, respondendo não a encomendas, mas a uma fidelidade interior. Já repararam que o que torna algo interessante não é uma virtude misteriosa do objecto, mas a intensidade da atenção que alguém lhe dedica? Basta que alguém se apaixone por uma coisa — seja genealogia, colchões, curling, ou a indústria pecuária nas ilhas Maurícias — para que essa coisa passe a importar. O mundo só se torna legível quando alguém lhe dedica amor suficiente.
E assim, um passatempo — que o homem moderno encara como frivolidade — transforma-se em forma de vida. Mas, como qualquer bom genealogista, nem que seja por contágio, Forjaz é uma alma antiga. Um amador: alguém que ama. Não faz “para ganhar”, nem “para subir”, nem “para cumprir”. Faz por amor ao objecto. Com a liberdade de todo aquele que se descobre inteiro.
A sua obra só se explica assim. Nenhum contrato suportaria o tempo dispendido numa aventura desta natureza. Nenhum financiamento toleraria os seus excessos. E — honra seja feita ao editor que embarcou na loucura — nenhum calendário editorial convencional a aceitaria. Só um passatempo, entendido como forma de vida, permite este nível de atenção e desperdício aparente.
Porque, se o trabalho organiza a sobrevivência, o passatempo organiza o sentido. E Forjaz não fez o que fez apesar de não haver interesse. Fê-lo porque não havia interesse. Menos o dele. E é precisamente essa paixão particular (e essa inutilidade económica) que explica a sua grandeza histórica.
Chesterton dizia que um passatempo não ocupa meio dia, mas meia vida. No caso de Forjaz ocupou uma vida inteira. A dele e, por acréscimo, a nossa.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome
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