Uma das consequências da paternidade — talvez a mais cósmica e demolidora de todas — é sermos obrigados a ser melhores pessoas. Não por súbito zelo de auto-aperfeiçoamento, como quem adere a uma dieta da moda ou àqueles retiros espirituais com um nome em inglês. Mas porque somos obrigados, diante da prole, a exibir a gravidade do legítimo admoestador. Deus sabe que eles precisam. São selvagens, as crianças. Gnomos anárquicos, tiranetes sem coroa, pequenos bárbaros que se passeiam pela casa com a insolência de quem descobre a pólvora a cada minuto. Se não os queremos de pastilha elástica, mascando como se fossem adolescentes de telenovela, ou então a assobiar pelos corredores da casa, como se andassem na estiva; se desconfiamos que o melhor para eles talvez não seja hipotecarem a alma em frente a um ecrã, ou se supomos, com um resto de esperança, que dedicar mais tempo aos avós lhes trará alguma da sabedoria antiga que resta— então, convém que o façamos também. Porque os miúdos são espertos. São como gatos. Percebem logo. Topam-nos sem piedade. E aí, entre a candura e a pertinácia, disparam a frase assassina — “Mas o pai tinha dito que isso não se faz.” — e nesse instante, leitor, já fomos.
O que está em causa não é coisa pouca: é a própria natureza das palavras. As crianças entendem-na instintivamente. Como Fernando Pessoa que dizia que “o idioma é o pensamento em acção”. Tal qual as crianças, que fazem equivaler uma coisa e outra. Crianças e poetas partilham uma alma semelhante: ambos acreditam que nomear é criar, que dizer é fazer, que falar é cumprir. É que eles sabem, melhor do que a maior parte, que as palavras são coisas como guardas-chuvas, como pedras, como fósforos a arder. Sabem que nomeiam o que estava oculto. Que revelam o que sempre existira, mas ainda não sabíamos. E, por isso, quando os miúdos descobrem que não fazemos o que lhes dizemos para fazer, sentem-se traídos. É um escândalo. Como se os tivéssemos enganado com dinheiro falso, ou lhes tivéssemos vendido banha da cobra no mercado do espírito.
O que eles ainda não sabem, e que terão de aprender, é que viver é dificílimo. Um homem tenta. Mas no seu calvário quotidiano é raro o serão que não acaba, de forma miserável, a comer bolachas em frente à televisão. Um ritual doméstico de decadência lenta, em que cada migalha é uma pequena capitulação. Isso não significa que a nossa condenação da prática perca autoridade. Não perde. Comer bolachas em frente à televisão é péssimo; toda a gente sabe. Significa que o abismo entre o que desejamos e o que fazemos é da própria condição humana. (E ainda bem. Porque o abismo educa.)
Máximas do tipo “os gestos valem mais que as palavras” não ajudam. Só estragam. Até porque o leitor já percebeu, porque eu lhe expliquei, que as palavras não valem menos (que os gestos). É este o problema das máximas. São pobres e estão em todo o lado; são cábulas do pensamento. Infiltram-se no nosso inconsciente. E muitas vezes mentem. Não nos dizem absolutamente nada sobre as nossas vidas. Da parte funda das nossas vidas, quero eu dizer. São setas com um “é por ali” escrito, a apontar para um labirinto.
Quem tenha espírito largo, quem tenha vivido intensamente, sabe que a vida não cabe em máximas. Entregar-se a elas é recusar o esforço, a paciência, a imparcialidade, a vida ardente que abre a compreensão de tudo o que é humano. Só o homem superficial se deixa conduzir por máximas; e eu acabei agora mesmo de ler a George Eliot e sinto-me inspirado.
Por isso repito: as palavras não valem menos. E acrescento: valem mais. São arcas frigoríficas, são campos de futebol, são campos magnéticos! Diz-se “palavras, leva-as o vento”. Não leva. O vento leva as folhas, os papéis, leva sacos de plástico. Mas não leva palavras. É ao contrário. As palavras é que o fazem soprar.
Está percebido que as palavras importam? Sobretudo quando não conseguimos estar à altura delas? As crianças têm razão em acreditar. Custa é mostrar que o valor da palavra não desaparece só porque falhamos. Essa é que é essa. Como se diz a um miúdo de dez anos que é por falharmos que a palavra se torna mais necessária? Que, por preceder o gesto, é mais real que ele? Que o ultrapassa e convoca? E que é quase sobrenatural, na medida em que se sobrepõe à existência e a atrai na sua direcção?
Claro que, para compreender isto, ajuda muito procriar. Não é fundamental, mas ajuda. Por isso, leitor: saia do sítio onde está agora, conheça alguém, case, tenha filhos. E não apenas um, mas uma caterva deles. Nada como uma legião de pequenos tiranetes das palavras para nos pôr em sentido. Para nos recordar que falar é viver num compromisso infinito, continuamente assinado em contractos desfavoráveis com o nosso próprio sangue.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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