Sempre que algum jornalista me pergunta o que podem as pessoas esperar de um concerto meu, sinto certa vontade de responder com brutalidade: podem esperar um concerto. Que mais querem? É justamente aí que começa o mistério: quer-se sempre mais. Todos queremos sempre mais. Uma aparição, um milagre, uma graça. O homem moderno convenceu-se que não acredita em nada, mas basta apagarem-se as luzes de uma sala para ele voltar a esperar o sobrenatural.
É espantoso. Já vimos mil entradas em palco, mil guitarras ao peito, mil cantores a cantarem num microfone. E ainda assim continuamos a acreditar que alguma coisa pode acontecer ali, naquele rectângulo onde um pobre diabo se oferece ao olhar dos outros.
Creio que a primeira vez que isto me ocorreu com palavras foi numa conversa com o Tiago Cavaco. O Tiago é pastor e, portanto, pensa nestas coisas com alguma vantagem. Foi então que proclamou: “não fomos feitos para o palco.” Não falava apenas de nós os dois, embora falasse também de nós os dois. Quando um pastor protestante diz uma coisa destas, está a apontar para Adão, para Eva, para a humanidade inteira apanhada em falso.
A frase bateu-me porque eu já a sabia sem a saber dizer. Há qualquer coisa naquela circunstância que é anterior ao espectáculo e superior ao entretenimento. Reparem bem: a elevação, a luz e a sombra, a fronteira entre o corpo exposto e a assembleia que o contempla, a suspensão da vida comum. Tudo aquilo compõe uma imitação do sagrado. É um altar deslocado. Um altar sem Deus, ocupado por um homem com sapatos e problemas de auto-estima.
Estou para aqui a dizer estas coisas como se nunca tivesse lido as teses de Scruton sobre cultura popular. Claro que li e ele viu uma coisa essencial: a música popular moderna funde o cantor e a canção. A canção deixa de ser uma obra que qualquer um pode interpretar, para passar a ser a expressão de uma mitologia pessoal. Em vez de ser o cantor a servir a canção, é o contrário, a canção que o serve a ele. Há um lado sacrificial nisto, na medida em que o artista pop, mais do que uma obra, dá-se a si mesmo. E assim nasce o totem de que Scruton fala, em redor do qual a tribo se junta para adorar. Até se tornar noutra coisa, é uma questão de tempo. E disso não se lembrou Scruton.
Quando se fala em monstros de palco, fala-se de alguém que domina o espaço cénico. Sim, está bem. Só que isso é a versão púdica. A verdade é pior. O monstro de palco é o homem que permaneceu demasiado tempo num lugar impróprio e que começou a pagar o preço da profanação.
Vou-lhe chamar demonologia pop.
Quanto mais talentoso, pior. Um tipo medíocre talvez possa regressar à insignificância praticamente ileso. Mas o génio é como se ficasse preso à própria aparição. Reparem: o que é o excesso carnal de Jagger, aquela boca que parece ter engolido todos os estádios do mundo, senão a deformação de um homem visto vezes de mais? O que é a voz demasiado arrastada de Dylan senão a marca deixada por uma profecia dita a partir do lugar reservado ao que se anuncia? O que são as máscaras de Bowie, senão mortes sucessivas? Mais do que marcas de estilo, isto são cicatrizes metafísicas.
Fomos feitos para aparecer uns diante dos outros, não para sermos fixados por centenas de olhos como uma imagem devocional. Há uma razão para a natureza nos ter negado a contemplação directa da própria cara. Tivemos de inventar os espelhos, lembram-se?
Isto ajuda a explicar a minha relutância em dar concertos. Pelo menos a dar-lhe uma tese mais ou menos convincente. Nunca me apetece. Como nunca apetece a ninguém. Quem disser o contrário mente, ou então já está perdido. Mesmo quando alguém tem vontade de dar um concerto, essa vontade pertence àquela inclinação de quem procura na vida um pouco de morte. Há quem vá à Nazaré apanhar ondas e há quem se atire de pontes com um cabo preso às costas. O artista faz a mesma coisa diante de uma plateia.
Quando um homem aceita ser elevado acima dos outros alguma coisa está fora do sítio. Essa coisa é ele. Podemos dizer que é arte, profissão, o que quisermos. Nenhum título resolve o problema ao homem amplificado.
Contudo, amanhã — que para vocês é ontem — lá vamos nós. Tiago Cavaco a abrir. Manuel Fúria a fechar. Os tais que despendem parte do seu tempo a teorizar sobre homens e altares. Sabemos perfeitamente que não devíamos estar ali, debaixo daquelas luzes. Mas basta que se acendam para que até a nossa má consciência queira ser aplaudida.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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