Desde que os primeiros casos confirmados de indivíduos infetados pelo COVID-19 que há um nervosismo crescente nos eslovenos e nos estrangeiros que cá moram. A Eslovénia esteve no centro das duas guerras mundiais e é curioso que seja aqui ao lado, no Norte de Itália, que volte a desencadear a angústia comum, desta vez contra um inimigo invisível.
Já desde o final de fevereiro que se começou a ver uma corrida aos supermercados para comprar “mantimentos”. As prateleiras vazias onde antes se podia encontrar arroz, batatas ou molho de tomate alimentam o nervosismo geral e lembram os tempos da guerra de que se ouviu os avós falar. O stock existe mas não houve tempo para repor os bens alimentares que estão de volta no dia seguinte. Mas estas imagens enchem as redes sociais e soam como um alarme. E logo Itália, onde muitos faziam aquele passeio de fim de semana para encher o carro de fruta, legumes, massas, queijos e todas aquelas coisas que sabem melhor em Itália. As fronteiras fecharam ontem, mas já foi tarde. Os números continuam a crescer do outro lado da fronteira embora haja uma perspetiva positiva (e tipicamente italiana, devo dizer) nestes tempos difíceis de quarentena, com o fenómeno musical que se viu nos últimos dias onde vizinhos cantam e tocam da sua varanda num esforço comum contra o isolamento.
O número de casos confirmados na Eslovénia só teve início várias semanas após a crise em Itália, logo a seguir às tradicionais férias escolares de inverno, altura em que muitos eslovenos terão aproveitado para ir esquiar no norte de Itália, como acontece todos os anos. Vimos a Itália a afundar como quem vê a tempestade no mar a chegar mais perto. Era inevitável e é de louvar o trabalho que os incansáveis profissionais de saúde têm levado a cabo. Ajuda que o povo esloveno saiba em geral respeitar as ordens, embora a tentação de socializar nestas tardes ensolaradas de primavera antecipada tenham enchido bares e cafés até há bem pouco tempo. Agora a cidade está deserta e há até desconfiança por quem se passeia pelas ruas. Não é fácil ser-se estrangeiro nestas alturas, quando a garganta aperta e a dificuldade de obter informação local (devido à complexidade da língua eslovena) associada à inexistência de uma Embaixada Portuguesa, nos faz sentir abandonados e “por nossa conta”.
O novo governo esloveno de Janez Janša teve a reunião inaugural em grande parte dedicada à crise gerada pela epidemia do novo Coronavirus que já fechou escolas até ao final de março. As regras publicadas na última quinta-feira, 12.3.2020, a quando a declaração nacional de epidemia são claras: todas as funções hospitalares não urgentes são canceladas, assim como férias e greves dos profissionais de saúde para que juntos possam travar a aceleração destes números que começam a ser assustadores. E nas escolas e infantários há muito que se tem vindo a falar com as crianças de uma forma clara e informada acerca desta nova situação, sobre a possível epidemia deste novo vírus, e de como lavar as mãos corretamente e persistentemente. É de louvar o excelente trabalho (que conheço pessoalmente) que os educadores nos infantários eslovenos e o instituto nacional de saúde pública têm vindo a fazer para o esclarecimento sobre esta e outras doenças junto às famílias.
Nos últimos tempos temos visto uma variedade de iniciativas juntarem-se à causa comum da luta global contra o COVID-19. Um exemplo recente é a plataforma de monitorização global de notícias sobre o Coronavirus – coronaviruswatch.ircai.org – disponibilizada pelo novo instituto de investigação de inteligência artificial da UNESCO (IRCAI), sediado em Ljubljana. E para apoiar o trabalho dos profissionais de saúde a compreender melhor a doença para chegar mais rápido à sua cura, a empresa eslovena Quintelligence, lançou também esta semana uma resposta rápida à luta europeia contra a epidemia. Esta contribuição, baseada em algoritmos de inteligência artificial, visa a exploração do conhecimento existente da família Coronaviridae para chegar mais rápido a respostas sobre o novo vírus (leia mais aqui). É um resultado inovador do projeto MIDAS na área de Big Data e Saúde Pública (parte do programa Horizon 2020, do qual sou representante na Eslovénia).
A partir de 16 de março a administração pública eslovena trabalha a partir de casa, utilizando a galardoada ferramenta eslovena de desktop remoto – ISL Online – que tem vindo a apoiar o trabalho remoto mundialmente. Numa altura em que uma grande parte das empresas estão a mandar os trabalhadores para casa em regime de trabalho à distância, seguindo o exemplo de muitos estabelecimentos de ensino um pouco por todo o lado, é preciso encontrar um equilíbrio para tornar esta iniciativa eficiente. E não é fácil, especialmente para quem não tinha esse costume. Felizmente, a equipa da ISL Online disponibilizou um conjunto de instruções que podem ajudar qualquer um a ser bem sucedido profissionalmente nestes tempos de quarentena. A Eslovénia é um país que em geral olha de bom grado essa forma de colaboração profissional, possibilitando viver-se numa cidade e trabalhar-se noutra. Portugal terá muito a ganhar em usar esta oportunidade para acelerar essa mesma transição para um mundo moderno do trabalho e da colaboração profissional.