Este é um artigo tardio. Originalmente tinha pensado escrever sobre a época natalícia, e focar-me nas interessantes diferenças entre católicos, protestantes e ortodoxos, partindo do facto de ser culturalmente católico (português), viver em Budapest (cidade com intensa tradição protestante) e por razões pessoais ter celebrado os ritos e momentos ortodoxos (o Natal a 6 de Janeiro, e Slava a 24 de Janeiro).
Mas depois, quando tive conhecimento do relatório sobre as imparidades da Caixa Geral de Depósitos, e a forma como centenas e centenas de milhões de euros – do nosso dinheiro – foram esbanjados por total falta de competência na avaliação de alguns empréstimos, e me apercebi da consequente impunidade absoluta da parte de quem devia ter assumido responsabilidade, pensei: como é isto ainda possível. Como falar de Natal com tamanho roubo público? Como é possível existirem ainda partes do Estado sob descontrolo total, sem que se apurem quaisquer tipo de responsabilidades ou que alguém seja punido ou julgado por tamanha gestão danosa.
E pior, pois tratando-se de um banco como a CGD estamos perante uma instituição com a qual o comum dos mortais tem algum tipo de contacto com, através da gestão da sua conta, da solicitação de um empréstimo para comprar casa, etc. E as situações descritas são de uma rotina tal que o escândalo facilmente se personaliza, pois muitos de nós já passamos por situações semelhantes, e sabemos bem o crivo por que passamos quando procuramos comprar casa ou solicitar um empréstimo. Eu mesmo, que tenho procurado alavancar a minha start-up, sei bem das dificuldades em convencer banqueiros conservadores da validade do meu projecto, especialmente depois de lhes falar em blockchain e crypto assets. E sei bem que nunca me aprovariam nenhum business plan, sem que pelo menos me auditassem até ao tutano.
Pois parece que neste nosso país, o tal das boas comadres, essas ainda têm um plano bem distinto por onde se movem, pisando um asfalto bem distinto do que eu, e que muitos de vocês leitores, pisam. Nunca se sujam, essas tais comadres, por alguma razão, nem sola gastam. Tudo lhes sai à primeira, sem que muitas questões sejam feitas, sacando euromilhões atrás de euromilhões, como que munidas de uma chave mágica que lhes garante que a combinação perfeita esteja acertada antes sequer de entrarem no escritório do avaliador. Curiosamente, se esta informação estivesse carregada no blockchain, assim possibilitando que se rastreasse com segurança toda a cadeia de informação registada, conseguiríamos identificar os responsáveis por cada decisão. E tomar facilmente medidas no combater à fraude e ao abuso de poder e recursos do Estado. O problema, é que em Portugal poucos parecem querer tomar as medidas necessárias para que tais realidades possam ser colocadas em prática, ou pelo menos explorar alguns dos caminhos escancarados pelas características de novas tecnologias, até a julgar por alguns dos (poucos) artigos que tenho conseguido apanhar sobre o tema de blockchain nas páginas de imprensa portuguesa.
Tomemos o exemplo do passado dia 4 de Janeiro, onde o qualificadíssimo Presidente do Instituto Superior Técnico, professor Arlindo Oliveira, colocou extenso artigo de página inteira sobre blockchain no jornal de referência Público. No mesmo, e por alguma razão, Arlindo Oliveira decidiu apenas escolher a plataforma bitcoin para reduzir as aplicações de tal tecnologia às suas formas descentralizadas e anonimizadas. Tivesse, por exemplo, explorado as características do Etherium, e poderia ter descoberto as possibilidades evidentes contidas nos smart contracts; ou ter explorado as diversas plataformas privadas, corporte e de consorcio ou plataformas de blockchain híbridas ou semi-publicas hoje disponíveis e com resultados práticos bem visíveis. Ou ainda explorar as aplicações prácticas bem mais alargadas que o mundo das transferências monetárias. Em todo o caso, e apesar do seu reduzido campo de análise, Arlindo Oliveira descreve excelentemente o mecanismo em torno de blockchain publicas, e da sua segurança, falhando apenas na leitura das suas implicações ou no potencial disruptivo associado à tecnologia blockchain. Falha as suas principais implicações: transparência e gestão da identidade digital
Dou-vos um exemplo. Decerto que muitos se recordam do recente “10 years challange” no Facebook, onde durante uma semana foi moda colocar lado a lado fotos pessoais separadas de 10 anos. Ora tal desafio terá oferecido centenas de milhões de euros de dados grátis (data) ao pessoal do facebook, que aproveitou a parolice alheia para avançar brutalmente o processo de aprendizagem do seu algoritmo no que toca ao reconhecimento facial e processos de envelhecimento. Agradeceu certamente a divisão de machine learning do gigante norte-americano. Ora se o Facebook tivesse a sua plataforma em blockchain (como parece que se prepara para fazer, pois acabou de adquirir um par de empresas na área e contractar uma larga equipa de developers), todos os seus utilizadores poderiam, em primeiro lugar, definir que tipo de partilha de informação / data poderia ser utilizada e, depois, estar seguros de que qualquer tipo de monetarização futura dos seus dados poderia ser rastreada à fonte, ou seja, ao utilizador original. Assim, se e quando o Facebook vendesse os resultados de tamanha borla, por largos milhões, e porque tudo se encontraria registado no blockchain, cada utilizador oderia receber uma quantia pela informação que, conscientemente, partilhou.
Esta capacidade de controlo da identidade digital, num mundo cada vez mais (inter)ligado, 4.0, e permanentemente monitorizado, é em si revolucionaria, e disruptiva. Trata-se apenas de termos assegurados os direitos à gestão da informação que, consciente ou não, partilhamos. Ou seja, sabermos pensar mais à frente, e em procurarmos salvaguardar as nossas liberdades individuais de quem usa e abusa delas, quer por motivos económico-financeiros como por motivações político-sociais. E não creio que o professor Arlindo Oliveira tivesse pensado nestas dimensões, preocupado que esteve, pareceu-me, em reduzir o blockchain a bitcoins, e em menosprezar as aplicações e impactos hoje já bem visíveis.
(Tema a regressar no meu próximo texto, onde apresentarei exemplos concretos de benefícios evidentes desta nova tecnologia, bem como alguns dos seus perigos).